| II. A Papisa (ou A Sacerdotisa) |
|
| O Arcano da Sabedoria, da Gnose, do Princípio Receptivo |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha |
|
| www.camoin.com |
|
| |
| Uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça. |
|
| Olha para a esquerda e veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobra um manto azul (em algumas versões as cores são opostas). Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe cai sobre os ombros, cobre totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podem ver os pés da mulher, assim como a base do trono. |
|
| Fato curioso, que é reencontrado somente no arcano XXI, é que a figura ultrapassa a margem superior do quadro: o extremo da tiara supera a linha negra, um pouco à direita do número II. |
|
|
| Significados simbólicos |
|
| A Sabedoria, a Gnose, a Casa de Deus e do homem, o santuário, a lei, a Cabala, a igreja oculta, a reflexão. |
|
| Fala também do binário, do princípio feminino, receptivo, materno. |
|
| Mistério. Intuição. Piedade. Paciência, influência saturnina passiva. |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Reserva, discrição, silêncio, meditação, fé, confiança atenta. Paciência, sentimento religioso, resignação. Favorável às coisas ocultas. |
|
| Mental: Grande riqueza de idéias. Responde a problemas concretos melhor do que a questões vagas. |
|
| Emocional: É amistosa, recebe bem. Mas não é afetuosa. |
|
| Físico: Situação garantida, poder sobre os acontecimentos, revelação de coisas ocultas, segurança de triunfo sobre o mal. Boa saúde, mas com um ritmo físico lento. |
|
| Sentido negativo: Dissimulação, hipocrisia, intenções secretas. Mesquinharia, inação, preguiça. Beatice. Rancor, disposição hostil ou indiferença. Misticismo absorvente, fanático. Peso, passividade, carga. As intuições que traz invertem seu sentido e se tornam falsas. Atraso, lentidão nas realizações. |
|
| História e iconografia |
|
| A tradução exata do nome que o Tarô de Marselha dá a este arcano (La Papesse) é A Papisa. Outras versões, como A Sacerdotisa ou A Alta Sacerdotisa, vêm do nome que lhe é dado em inglês (The High Priestess). |
|
| A figura da Papisa faz alusão a um fato histórico, ou melhor, lendário, que ocupa um lugar notável na literatura da Idade Média: a pretensa existência de um Papa do sexo feminino. A tradição popular diz que uma mulher ocupou a cadeira de São Pedro durante alguns anos sob o nome de João VIII. |
|
| Várias versões aparecem, mas o mais antigo testemunho que chegou até nós é bastante posterior à data de seu suposto reinado. |
|
| De qualquer modo, para o estudo tradicional e iconográfico do Tarô, não importa estabelecer alguma fidelidade histórica. |
|
| Embelezada com o correr do tempo, uma de suas versões combina admiravelmente com o simbolismo maternal que se atribui à estampa: segundo tal versão, a papisa teria ficado grávida de um dos seus familiares e, como não se recolheu à época do parto, o acontecimento teria se dado em plena rua, durante uma procissão entre a igreja de São Clemente e o palácio de Latrão. |
| |
|
|
|
| Tarô de Marselha |
|
| www.krishadar.com |
|
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| Com a dramática descoberta do embuste, o enfurecido séquito papal teria assassinado Joana e seu filho. Antigas tradições romanas asseguram que, no lugar do homicídio, permaneceu durante séculos um túmulo ornado por seis letras P, que podiam ser lidas de três maneiras diferentes (jogando com a inicial comum a Papa, Pedro, pai e parto). |
|
| Ainda com relação a essa lenda, deve-se assinalar um fato notável: na célebre Bíblia ilustrada alemã do ano de 1533, agrande prostituta do Apocalipse está representada com uma tiara na cabeça, A tradição afirma que foi desenhada deste modo por desejo expresso e sugestão de Martinho Lutero. |
|
| Enquanto o Mágico não poderia permanecer em repouso (numa unidade andrógina onde tudo é impulso e estímulo), a Sacerdotisa é o próprio repouso: sentada, majestosa, receptiva, seu reino é binário, uma etapa na distinção da polaridade do universo. Se o binário equivale a conflito, no sentido de rompimento da unidade, de abandono do caos essencial onde não existem as magnitudes nem os nomes, é também a primeira etapa dolorosa e imprescindível das vias iniciáticas, o começo da busca da identidade. |
|
|
|
| A Sacerdotisa representa a submissão majestosa às exigências dessa iniciação, o equilíbrio que a repartição elementar de forcas produz no conflito. |
|
| O que o Arcano I era para a encarnação das energias espirituais o Arcano II o é quanto à aceitação dessa metamorfose: o reconhecimento prévio da luta entre os princípios branco-negro, dia-noite, Yang-Yin. |
|
| Alguns autores vêem na Sacerdotisa a representação deIsis, com todas as suas conotações noturnas e ocultas. Também a associam a Cassiopéia, a rainha negra da Etiópia e mãe da constelação Andrômeda, e a Belkis, a belíssima rainha de Sabá, para quem Salomão teria composto o Cântico dos Cânticos. Essa relação da Sacerdotisa com deusas e rainhas negras (ou escuras) não parece casual e acentua a contrapartida com a carta a seguir: o simbolismo branco, luminoso e diurno do Arcano III (A Imperatriz), com quem a Sacerdotisa forma a dupla oposta e complementar da feminilidade. |
|
| Este símbolo subterrâneo, que se refere ao aspecto esotérico da revelação, teria passado para o cristianismo sob a forma das virgens negras, cujo ritual se realiza com freqüência numa cripta ou num lugar inacessível. |
|
| Mãe, esposa celeste, senhora do saber esotérico, a Papisa ou Sacerdotisa ocupa na estrutura do Tarô o lugar da porta, da passagem entre o exterior e o interior, do ponto imóvel e comum entre a Casa e a rua. |
| |
|
|
|
|
Isis, deusa do amor e da magia, que se tornou a deusa-mãe do Egito
|
|
| |
|
| III. A Imperatriz |
|
| O Arcano da Magia Sagrada, da Força Mediadora, da Mãe |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha-Camoin |
|
| |
| Uma mulher coroada, sentada num trono, mantém contra si, com sua mão direita, um escudo ornado com uma águia amarela, enquanto que com a esquerda sustenta um cetro que termina por um globo encimado pela cruz. |
|
| Está representada de frente, com os joelhos separados e com os pés ocultos nas dobras da túnica. A cintura da Imperatriz está marcada por um cinto, que se une a uma gola dourada. A coroa leva florões amarelos e permite que os cabelos da figura se derramem sobre os ombros. |
|
| O trono está bem visível e seu espaldar sobressai à altura da cabeça da Imperatriz. No ângulo inferior esquerdo da estampa cresce uma planta. A águia desenhada no escudo olha para a direita. |
|
| Significados simbólicos |
|
| O verbo, o ternário, a plenitude, a natureza, a fecundidade, a geração nos três mundos. |
|
| Sabedoria. Discernimento. Idealismo. Influência solar intelectual. É o arcano da Magia Sagrada, instrumento do poder divino. |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Gravidez, criatividade, sucesso. Compreensão, inteligência, instrução, encanto, amabilidade. Elegância, distinção, cortesia. Domínio do espírito, abundância, riqueza. |
|
| Mental: Penetração na matéria por meio do conhecimento das coisas práticas. Os problemas vêem à tona e podem ser reconhecidos. |
|
| Emocional: Capacidade para penetrar na alma dos seres. Pensamento fecundo e criador. |
|
| Físico: Esperança, equilíbrio. Soluciona os problemas. Renova e melhora as situações. Poder continuo e irresistível nas ações. |
|
| Sentido negativo: Desavenças, discussões em todos os planos. As coisas se embaralham e ficam confusas. Atraso na realização de um acontecimento que, no entanto, ocorrerá. |
|
Afetação, pose, coqueteria. Vaidade, presunção, desdém. Futilidade, luxo, prodigalidade. Deixa-se levar pelas adulações, falta de refinamento, modos de novo-rico. |
| |
| |
|
|
| História e iconografia |
|
| A Imperatriz, adornada dos símbolos atribuídos à feminilidade triunfante, pode ser relacionada a um repertório interminável: a Madona cristã, a esposa do rei ou mãe do herói; a deusa primordial de todos os ritos matriarcais, as quatro damas do baralho. |
|
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| Sobre a figura da Imperatriz parece ser mais importante considerar a sua localização no Tarô (como a terceira da série) e à sua relação com outras figuras do que o seu simbolismo individual, já que o caráter difuso da carta torna sua amplitude inesgotável. Assim, será interessante recapitular tudo que foi escrito sobre o simbolismo do três e a ordem do ternário, bem como às variadas significações atribuídas às damas dos Arcanos Menores. |
|
| Na versão de Wirth, a Imperatriz aparece aureolada por doze estrelas, das quais somente nove são visíveis: é evidente o duplo sentido alegórico desta representação, que se refere simultaneamente aos signos do Zodíaco e ao período da gestação. Como o 9 é também representação da inteligência, no momento da sua maturidade, é possível associar os atributos centrais do Arcano III: feminilidade-experiência-sabedoria. |
|
| Relacionada em todas as cosmogonias ao simbolismo lunar e à face oculta do conhecimento (Sacerdotisa), a mulher admite também um período solar (Imperatriz), do qual há correspondências nas organizações culturais mais remotas da humanidade. |
|
|
|
| Do ponto de vista matriarcal, a Imperatriz não é ainda a Eva protagonista do pecado e da queda, mas a que aparece em certas tradições talmúdicas: a fundadora, que reencontra Adão depois de trezentos anos de separação; a que aniquila Lilit – a rival estéril e luxuriosa – para organizar junto ao primeiro pai a família dos homens. |
|
| Alguns comentaristas do Islã vêem nesta Eva triunfante do adultério a representação da passagem das sociedades anárquicas ao princípio de ordem dos tempos históricos. Seu túmulo mítico se localiza em Djeda ou Djidda, às margens do mar Vermelho e próximo da montanha sagrada de Arafat, onde o teria ocorrido seu reencontro com Adão, para formar o casal primordial. |
|
| A Imperatriz, finalmente, é símbolo da palavra e representa o envoltório material do corpo, seus órgãos e suas funções. Ouspensky a imagina repousando sobre um trono de luz, bela e fecunda, em meio à interminável primavera. |
| |
|
|
|
|
Lilit e a rebeldia feminina
|
| |
|
| IIII. O Imperador |
|
| O Arcano da Autoridade, da Paternidade e da Obediência |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha |
|
| www.camoin.com |
|
| | Sentado num trono com as pernas cruzadas, um homem coroado é visto de perfil. Em sua mão direita traz um cetro que termina por um globo e pela cruz, enquanto a outra mão segura o cinto. No primeiro plano, à direita, um escudo com a imagem de uma águia parece apoiar-se no chão. Um colar amarelo prende uma pedra (ou um medalhão) de cor verde. A coroa se prolonga extraordinariamente por detrás da nuca. O trono, uma cadeira em cujo braço esquerdo se apóia o Imperador, repousa – como a mesa do Arcano I – sobre um terreno aparentemente árido, do qual brota uma solitária planta amarela. Ao contrário do emblema da Imperatriz, a águia do Arcano IIII olha para a esquerda. O desenho das águias, por outro lado, difere notavelmente num e noutro caso. A notação IIII, no topo do desenho, que ocorre também nos arcanos VIIII, XIIII e XVIIII não é habitual na numeração romana (que registraria IV, IX, XIV e XIX). Essa forma de grafar, porém, faz parte da tradição gráfica do Tarô, tal como aparece na versão de Marselha e na maioria das coleções de cartas antigas. |
|
|
| Significados simbólicos |
|
O poder, o portal, o governo, a iniciação, o tetragrama, o quaternário, a pedra cúbica ou sua base. Proteção paternal. Firmeza. Afirmação. Consistência. Poder executivo. Influência saturnina-marciana. Concretização, habilidades práticas, ordem, estabilidade, prestígio. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
Direito, rigor, certeza, firmeza, realização. Energia perseverante, vontade inquebrantável, execução do que está resolvido. Protetor poderoso. Mental: Inteligência equilibrada, que não despreza o plano utilitário. Emocional: Acordo, paz, conciliação dos sentimentos. Físico: Os bens, o poder passageiro. Contrato firmado, fusão de sociedades, situação do acordo. Saúde equilibrada, mas com tendência à exuberância excessiva. Sentido negativo: Resultados contrários ao pretendido, ruptura do equilíbrio. Queda. Perda dos bens, da saúde ou do domínio sobre coisas e seres. Oposição tenaz, hostilidade preconcebida. Teimosia, adversário obstinado; assunto contrário aos interesses. Autodestruição, grande risco de ser enganado. Autoritarismo, tirania, absolutismo. |
|
| História e iconografia |
|
Alguns estudiosos chamam atenção para um aspecto significativo desta figura: o Imperador tem as pernas cruzadas. Este detalhe corroboraria a tese de inspiração germânica do arcano, visto que no antigo direito alemão esta posição era prescrita ritualmente para os altos magistrados (1220). No entanto, imagens semelhantes e igualmente antigas aparecem nas iconografias francesa e inglesa, representando altos dignitários. O caráter cerimonial e prestigioso do cruzar as pernas pode ter uma origem mais remota, possivelmente oriental, já que isso não é habitual no panteão greco-romano. O antigo simbolismo, convertido em liturgia pela codificação alemã, admite também um profundo sentido psicológico: cruzar as pernas e os braços indica concentração volitiva, encerra o protagonista na sua esfera pessoal e, do ponto de vista gestual, afirma claramente o desejo de individuação. Outros detalhes merecem ser assinalados a propósito do Imperador. É comum, associar o simbolismo do Tetragrammaton à figura do Imperador. É sabido que o tetragrama traduz ao nome de Deus omitindo-o, ao decompô-lo no nome das letras que o formam: Yod – He – Vau– He. | |
|
|
|
|
Tarô de Marselha de Kris Hadar |
|
| |
|
|
| | A leitura do nome das letras (grafadas da direita para a esquerda, em hebraico), dá Jehová, que não é o nome de Deus, mas alusão a ele. Os cabalistas, como demonstra este exemplo, trabalham também com o pensamento analógico, tal como se vê nos demais estudos tradicionais. |
|
“A idéia é perfeitamente clara” – diz Ouspensky – “se o Nome de Deus está realmente em tudo (se Deus está presente em tudo), então tudo deve ser análogo a tudo mais: a parte menor deverá ser análoga ao Todo, a partícula de pó análoga ao Universo, e todos análogos a Deus”. Do ponto de vista cabalístico, a relação Tetragrama-Imperador parece muito fecunda, já que, comparada com as três letras anteriores (ou os três arcanos), consideradas respectivamente como o princípio ativo (I), o princípio passivo (II) e o princípio do equilíbrio ou neutralizador (III), a quarta letra ou carta é considerada o resultado e, também, o princípio da energia latente. |
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| | Isto se harmoniza perfeitamente com a versão de Wirth sobre o Arcano IIII, segundo a qual ele não é apenas o Príncipe deste mundo, que "reina sobre o concreto, sobre o que está corporificado", mas é também o paradigma do homem estritamente normal, em posse de suas potencialidades, mas ainda não realizado pela iniciação. Nesse sentido, representa o quaternário de ordem terrena, de organização da vida sensível, e pode ser relacionado também ao demiurgo dos platônicos, às divindades inferiores em geral (os heróis, antes dos deuses), e a toda tentativa de criação de vida no nível terreno e perecível. Também se vê nele, enquanto rei que propicia a prosperidade e o crescimento de seu povo, uma correspondência ao mito de Hércules, “portador da maçã, que leva as maçãs de ouro ao jardim das Hespérides”. Hércules, enquanto herói solar, que resume como nenhum outro as fases do processo iniciático no sentido da liberação individual que, esotericamente, só se pode alcançar através do trabalho e do esforço. |
|
Como Hércules, também o Imperador não transcende a condição humana, embora o princípio indique que poderá levá-la à sua mais alta manifestação. É considerado, em sua face não trabalhada, como representante do aspecto violento e agressivo do masculino, mas também como dispensador da energia vital e, neste aspecto, como a Natureza abundante, divisível, nutritiva. |
| V. O Papa (O Pontífice ou o Hierofante) |
|
| O Arcano da Transcendência, da Iluminação, da Pobreza |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
|
|
| Tarô de Marselha |
|
| www.camoin.com |
| |
Um grupo de três personagens em que um deles é visto de frente, sentado, com a mão direita levantada no sinal da benção, tendo em sua mão esquerda o eixo de uma cruz de seis braços; sua cabeça está coroada por uma tiara. Os outros dois personagens que se encontram em primeiro plano, de costas para quem contempla a imagem, têm os rostos voltados para o primeiro personagem. Este, protagonista da figura, tem veste azul, capa vermelha ornada de amarelo. Sua mão esquerda está fechada e coberta por uma luva que tem impressa uma cruz dos templários. A barba e o cabelo do Pontífice são brancos. Percebe-se apenas vagamente a cadeira em que o personagem central está sentado, com duas colunas ao fundo. Os dois personagens que estão de costas mostram a tonsura. O da esquerda aponta sua mão direita para o solo, com os dedos separados. O homem da direita aponta para o alto com sua mão esquerda, com os dedos juntos. |
|
| Significados simbólicos |
|
É o arcano do ato da bênção, da iniciação, da demonstração, do ensino. Lei, simbolismo, filosofia, religião. Dever. Moral. Consciência. O Santo. |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Autoridade moral, sacerdócio. Proteção, lealdade. Observância das convenções, respeitabilidade. Ensino, conselhos equilibrados. Benevolência, generosidade indulgente, |
perdão. Mansidão. Busca de sentido, revelação, hora da verdade, confiança, indicações do caminho da salvação. Mental: O Pontífice representa a forma ativa da inteligência humana, que traz principalmente as soluções lógicas. Significa também os pensamentos inspirados por um nível mais alto de consciência. Emocional: Sentimentos poderosos, afetos sólidos, solicitude, sem cair em sentimentalismos. O Pontífice indica os sentimentos normais, tal como devem ser manifestados na vida, de acordo com as circunstâncias. Físico: Equilíbrio, segurança na situação e na saúde. Segredo revelado. Vocação religiosa ou cientifica. Sentido negativo: Indica um ser desprovido de sua razão e seus instintos, na obscuridade, carente de apoio espiritual. Projeto retardado. Chefe sentencioso, moralista estreito, rígido, prisioneiro das formalidades, metafísico dogmático, professor autoritário, teórico limitado, pregador da “boca pra fora”. Conselheiro desprovido de sentido prático. Problemas com saúde, indecisão, negligência. |
| |
| |
|
|
| História e iconografia |
|
| O Arcano V é uma das figuras que permitiram precisar com maior exatidão a antiguidade do Tarô, já que seus detalhes iconográficos remontam a um modelo perdido em que se inspirou necessariamente o desenho de Fautrier (Tarô de Marselha), o que é confirmado pelas diferenças e semelhanças com maços mais antigos, como os de Baldini (1436-1487) e Gringonneur (1450). |
Em primeiro lugar, é preciso destacar que o Pontífice do Tarô de Marselha é barbudo, enquanto seus precursores renascentistas e medievais não o são. Há estudos que estabelecem uma curiosa cronologia da moda papal neste aspecto. Torna-se assim evidente que o tarô clássico copia um modelo mais antigo que não chegou até nós, mas que assegura a continuidade evolutiva do Tarô desde os imagiers du moyen age até a atualidade. Outro detalhe interessante é o da evolução da tiara papal na iconografia do Tarô. A tiara (com seu simbolismo sobre a existência dos três reinos ou mundos) não é um elemento litúrgico que permaneceu invariável ao longo da História. Boa parte dos estudiosos tende a concluir que as composições das tiaras representadas no Tarô clássico foram inspiradas em |
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| | gravações bem anteriores ao final do século XV, possivelmente dos fins do primeiro milênio. A luva papal ornada com a cruz-de-malta indica também a origem remota da imagem, já que desde os tempos de Inocêncio III (1197-1216) a cruz havia sido substituída por uma plaqueta circular. Arcano da capacidade adivinhatória, da intuição filosófica, do conhecimento espontâneo, o Pontífice simboliza também (por seu número) o homem como intermediário entre a divindade e o plano das coisas criadas. A soma destes simbolismos permite associá-lo ao mediador por excelência, o pacifista, o construtor de pontes, o que encontra a saída para situações aparentemente insolúveis, mediante um luminoso clarão intuitivo. O Papa também é visto como representante da lei moral, não escrita, que domina a consciência e, no setenário que as pontas da sua cruz organizam, as virtudes necessárias para vencer ossete pecados capitais: - orgulho (Sol), preguiça (Lua), - inveja (Mercúrio), cólera (Marte), luxúria (Vênus), |
|
- gula (Júpiter) e avareza (Saturno). Wirth o imagina um ancião pleno de indulgência para com as debilidades humanas, pontificando ante duas categorias de fiéis: aqueles que compreendem (representados pelo personagem com a mão para o alto); e os que formam o rebanho cego e inconsciente que obedece por temor ao castigo, e não por autodeterminação (representados pelo personagem que aponta a mão para o chão). Estas combinações (alto e baixo, direita e esquerda) voltam a colocar a ordem do quaternário como modelo de organização. Considerado do ponto de vista do quaternário formado pelos arcanos anteriores, o Pontífice representaria o conteúdo da forma, a quintessência concebível (se bem que imperceptível), o domínio da quarta dimensão. |
| VI. Os Namorados (Os Enamorados ou Os Amantes) |
|
| O Arcano da Iniciação, da Castidade e do Livre-arbítrio |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Os Enamorados |
|
Tarô de Marselha www.krishadar.com |
|
| |
| Um homem, entre duas mulheres, é visado por uma flecha que parece pronta para ser disparada por um anjo, Cupido, à frente de um disco solar. O homem, no centro do grupo, olha para a mulher da esquerda. Ele tem cabelos louros, as pernas descobertas, e sua vestimenta é uma túnica de listas verticais, com mangas e um cinto amarelo. Vê-se apenas uma das suas mãos, a direita, à altura do cinto. |
|
| A mulher da direita, com os cabelos louros soltos sobre os ombros, tem um rosto jovem, fino. A mão esquerda está pousada sobre o peito do homem, enquanto a direita aponta para baixo, de modo que os braços estão cruzados. |
|
| A outra mulher, a da esquerda, está representada de costas, mas o rosto aparece de perfil. Tem cabelos que escapam livremente de um curioso chapéu. Dirige a mão direita para a terra e pousa a esquerda sobre o ombro do jovem. |
|
| O anjo, de cabelos louros e asas azuis, segura uma flecha branca com uma das mãos enquanto com a outra segura um arco da mesma cor. |
|
| Do disco solar surgem 24 raios pontiagudos, um dos quais é superposto pela asa do anjo. |
|
|
|
| Significados simbólicos |
|
| Sentimento. Livre arbítrio. Maioridade. Prova. Escolha. Encadeamento, enredo, abraço, luta, antagonismo, combinação, equilíbrio. |
| Matrimônio, ligação, união. Integração de ambos os sexos ao poder gerador do universo. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Decisão voluntária, eleição. Votos, aspirações, desejos. Exame, deliberações, responsabilidades. Afetos. |
|
| É a carta da união e do matrimônio. Pode representar para os consulentes de ambos os sexos a iminência de uma escolha a ser realizada; em certos casos, também, a infidelidade. |
|
| Mental: Amor pelas belas formas e pelas artes plásticas. |
|
| Emocional: Dedicação e sacrifícios. |
|
| Físico: Os desejos, o amor, o sacrifício pela pátria ou pelos ideais sociais, assim como todos os sentimentos manifestados fortemente no plano físico. |
|
| Sentido negativo: Ruptura, separação, cortes, desordem. Divórcio. Prova a ser suportada. Dúvida, indecisão. Tentações perigosas, risco de ser seduzido. Má conduta, libertinagem. Debilidade, falta de heroísmo. Indecisão e impotência. |
|
| História e iconografia |
|
| Em vasos e quadros da época romana, encontra-se com freqüência a imagem de um casal de namorados ante uma terceira pessoa ou elemento (em geral um Cupido). |
| |
|
|
|
Os Enamorados no Tarô Gringonneur ou Charles VI (1368-1422) |
| |
|
|
| O Arcano VI parece referir-se de forma alegórica a uma idéia diferente: a famosa parábola de Hércules na encruzilhada entre a Virtude e o Vicio, tal como conta Xenofonte nas suas lembranças de Sócrates. É bem provável que esta parábola – e suas variantes, como a de Luciano, o Jovem, disputado pela Arte e pela Ciência, entre as mais conhecidas – tenha sido popular na Idade Média, visto que é citada por vários autores dessa época (Cícero, no Tratado dos Deveres; São Basílio, no seu Discurso aos Jovens). |
|
| A idéia fundamental deste tema – ou seja, a necessidade de escolha entre dois caminhos – encontra-se igualmente em muitas imagens cristãs. Pode-se citar como exemplo uma miniatura bizantina do século X, onde Davi está representado entre duas mulheres que simbolizam a Sabedoria e a Profecia: a pomba que pousa sobre a cabeça do rei lembra em muito o Cupido do Arcano VI. |
|
| A antiguidade desta parábola é indiscutível, mesmo que as suas representações gráficas mais remotas não tenham chegado até nos. Na vida de Apolônio de Tiana, narrada por Filostrates no final do século II, há uma curiosa passagem em que um sábio egípcio diz a Apolônio: |
|
| “Tu conheces, nos livros de imagens, a representação de Hércules em que ele, jovem, ainda não escolheu o seu caminho. O Vício e a Virtude o rodeiam, tentam atraí-lo, cada um o quer para si...” |
| |
|
|
|
|
| Davi, entre a Sabedoria e a Profecia |
|
| |
|
|
| É preciso remontar mais uma vez aos pitagóricos para encontrar o simbolismo gráfico do tema, representado entre eles pela letra Y, emblema da escolha vital que todo homem realiza no final da infância. |
|
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| O traço da metade inferior da letra Y representaria precisamente a infância, isenta de vícios ou virtudes; os braços que partem da bifurcação da letra representariam cada uma dessas tendências, enquanto que o ponto onde a bifurcação se produz seria o momento exato em que a puberdade se manifesta. |
|
| É comum encontrar nos manuscritos medievais esta referência à letra Y: “bifurcação, ou letra de Pitágoras”. Não é casual, assim, que alguns desenhos modernos do Tarô mencionem esta lâmina como A Dúvida ou A Prova. |
|
| Esse mesmo significado é mencionado no Antigo Testamento – no Deuteronômio, no primeiro dos Salmos, e mais explicitamente ainda em Jeremias. A idéia não reaparece no Novo Testamento, mas sim no começo dos Ensinamentos dos Doze Apóstolos, texto não canônico, presumivelmente composto por volta do século II: “Dois são os caminhos; um leva à Vida e outro à Morte”. |
|
| Uma interpretação totalmente diferente vê nessa estampa o ato do compromisso matrimonial dos noivos diante do sacerdote, ou seja, a cerimônia matrimônio enquanto sacramento. É o caso de alguns dos |
|
|
| célebres pintores renascentistas – Rafael, Perugino – deram testemunho dessa cerimônia na vida da Virgem. |
|
| Wirth vê no Enamorado a primeira fase individual da trajetória iniciática, quando o homem terminou a sua formação, mas não começou ainda o seu trabalho. |
|
| Outra vertente de interpretação menciona o simbolismo sexual do “senário”, partindo do sentido literal do nome da Carta. |
|
| “Entre os pitagóricos – disse Clemente de Alexandria – o seis é um numero sexual, chamando-se por esta razão O Matrimônio”. |
|
| Nas analogias geométricas, o Enamorado se identifica ao selo de Salomão, ou seja, tem claro vínculo com cópula dos triângulos entrelaçados. |
|
| Do ponto do vista psicológico, é sem dúvida a metáfora mais transparente do caminho para a identidade, que apenas se realiza no conflito e no intercâmbio com o mundo e com os outros. |
| |
|
|
| VIII. A Justiça |
|
| O arcano do Equilíbrio, da Imparcialidade |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
 |
|
| Marselha-Camoin |
|
| |
| Uma mulher, sentada num trono, tem em sua mão direita uma espada desembainhada com a ponta virada para cima, e na esquerda uma balança com os pratos em equilíbrio. A mão que segura a balança encontra-se à altura do coração. |
|
| Este personagem, que é visto de frente, está vestido com uma túnica cujo panejamento sugere uma mandorla (ver arcano 21 – O Mundo), espaço de conciliação das polaridades. |
|
| Não se vêem os pés da mulher nem a cadeira propriamente dita. Aparece, em compensação, com toda nitidez, o espaldar do trono: as esferas que o arrematam estão talhadas de maneira diferente. |
|
| Significados simbólicos |
|
| Justiça, equilíbrio, ordem. |
|
| Capacidade de julgamento. |
|
| Conciliação entre o ideal e o possível. Harmonia. Objetividade, regularidade, método. |
|
| Balança, avaliação, atração e repulsão, vida e temor, promessa e ameaça. |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Estabilidade, ordem, persistência, normalidade. Lei, disciplina, lógica, coordenação. Flexibilidade, adaptação às necessidades. Opiniões moderadas. Razão, sentido prático. Administração, economia. Obediência. |
|
| Soluções boas e justas; equilíbrio, correção, abandono de velhos hábitos. |
|
| Mental: Clareza de juízo. Conselhos que permitem avaliar com justeza. Autoridade para apreciar cada coisa no momento oportuno. |
|
| Emocional: Aridez, secura, consideração estrita do que se diz, possibilidade de cortar os vínculos afetivos, divórcio, separação. Este arcano representa um princípio de rigor. |
|
| Físico: Processo, reabilitação, prestação de contas. Equilíbrio de saúde, mas com tendência a problemas decorrentes de excessos (obesidade, apoplexia), devido à imobilidade da carta. |
|
| Sentido negativo: Perda. Injustiça. Condenação injusta, processo com castigo. Grande desordem, perigo de ser vítima de vigaristas. Aburguesamento. |
| |
|
|
|
| História e iconografia |
|
|
 |
|
| Bamberg (1237) |
|
| |
| A representação da Justiça como uma mulher com balança e espada (ou livro) data provavelmente de um período remoto da arte romana. |
|
| Durante a primeira parte da Idade Média, espada e balança passaram a ser atributos do Arcanjo Miguel, comumente designado por Micael ou São Miguel, que parece ter herdado as funções do Osíris subterrâneo, o pesador de almas. |
|
| Mais tarde estes elementos passam para as mãos da impassível dama, da qual há figurações relativamente antigas na arte medieval: um alto-relevo da catedral de Bamberg, datado de 1237, a representa deste modo |
|
|
|
| Tudo indica que a iconografia do Arcano VIII seguiu com bastante fidelidade a tradição artística. |
|
| A espada e a balança são, para Aristóteles, os elementos representativos da justiça: a primeira porque se refere à sua capacidade distributiva; a segunda, à sua missão equilibradora. Ao contrário das alegorias inspiradas na Têmis grega, a Justiça do Tarô não tem venda sobre os olhos. |
|
| É comum relacionar este arcano ao signo zodiacal de Libra. Ele representa, como aquele, nem tanto a justiça exterior ou a legalidade social, mas sim a função interior justiceira que põe em movimento todo um processo psíquico (ou psicossomático) para determinar o castigo do culpado, partindo já da idéia de que “a culpa não é, em si, diferente do castigo”. |
|
| Também se atribui à balança uma função distributiva entre bem e mal, e a expressão do princípio de equilíbrio. A espada, por sua vez, representa a sentença, a decisão psíquica, a palavra de Deus. |
| |
|
|
|
|
| |
| Na repartição do Tarô em três setenários, a ordem que Oswald Wirth estabelece é descendente, correspondendo aos arcanos I-VII a esfera ativa do Espírito; aos VIII-XIV, a esfera intermediária,anímica; aos arcanos XVI-XXI, a esfera passiva do Corpo. |
|
| O segundo setenário – que se inicia com a Justiça – corresponde à Alma ou ao aspecto psicológico da individualidade. |
|
| “O primeiro termo de um setenário – diz Wirth – desempenha necessariamente um papel gerador. Assim, o espírito emana da Causa Primeira (O Prestidigitador), a alma procede do Arcano VIII, e o corpo, do XV (O Diabo)”. |
|
| Examinado do ponto de vista dos ternários, a Justiça (8), ocupa o segundo termo do terceiro ternário, sendo precedida pelo Carro (7), que cumpre aí a função geradora, enquanto ela, a Justiça, passa a exercer a função de organizadora. |
|
|
<-- A Justiça no Tarô de Oswald Wirth
|
|
|
|
| Neste sentido – confirmado por sua localização na ordem dos ternários – Wirth ressalta o caráter esotérico do Arcano VIII: nada pode viver sem cobrir a distância entre a origem e o equilíbrio, já que os seres não existem a não ser em virtude da lei à qual estão submetidos. |
|
| É interessante também analisar a correspondência simbólica entre a Justiça (8) e o Imperador (4), já que há uma aliança evidente entre os princípios de Poder e Lei e a busca da harmonia do governo (de um estado, de uma situação, da individualidade). Vale lembrar a esse respeito que, tradicionalmente, cabe ao soberano a aplicação da justiça. |
|
| Na mitologia grega, Zeus gera em Têmis (a fraternal divindade justiceira do Olimpo grego), entre outras filhas, as Horas ouQuatro Estações, e Diké (ou Diqué), a personificação da Justiça. Essa filiação permite relacionar o Arcano VIII à ordem do quaternário, detalhe que já se evidencia a partir de seu número (8 = 2 x 4). |
|
Diké, a deusa grega da Justiça -->
|
| |
|
|
| IX (ou VIIII). O Eremita (ou Ermitão) |
|
| O Arcano da Consciência, do Iniciado |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha-Camoin |
|
| |
| Um homem, de pé, tem na mão esquerda um bastão que lhe serve de apoio, enquanto que com a direita levanta uma lanterna até a altura do rosto. Está representado de três quartos, com o rosto voltado para a esquerda. Veste uma grande túnica e um manto azul com o forro amarelo. Seu capucho, caído sobre as costas, parece continuar a túnica e é arrematado por uma borla amarela. |
|
| A lâmpada, aparentemente hexagonal, tem apenas três de seus lados visíveis, sendo o central vermelho e os restantes amarelos. |
|
| O fundo da gravura é incolor, e o chão de um amarelo estriado de listas negras, muito semelhante ao reverso do manto. |
|
| Significados simbólicos |
|
| O Iniciado, o buscador incansável. Sabedoria, iluminação, estudo, autoconhecimento |
|
| Meditação, recolhimento, saber desligar-se. Reavaliação da vida e dos objetivos. |
|
| Concentração, silêncio. Profundidade. |
|
| Prudência. Reserva. Limites. Influência saturnina. |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Austeridade, moderação, sobriedade, discrição. Médico experiente, sábio que cala seus segredos. Celibato. Castidade. |
|
| Mental: Contribuição luminosa à resolução de qualquer problema. Esclarecimento que chegará de modo espontâneo. |
|
| Emocional: Alcançar as soluções. Coordenação, encontro de afinidades. Significa também prudência, não por temor, mas para melhor construir. |
|
| Físico: Segredo descoberto, luz que se fará sobre projetos até agora ocultos. Na saúde: conhecimento do estado real, consultas que podem remediar os problemas. |
|
| Sentido negativo: Obscuridade, concepção falsa de uma situação. Dificuldades para nadar contra a corrente. Timidez, isolamento, depressão, recusa de relações. |
|
| Mutismo, circunspecção exagerada, isolamento, caráter fechado. Avareza, pobreza. Conspirador tenebroso. |
|
Tarô Visconti Sforza -->
|
|
| |
 | |
|
|
| História e iconografia |
|
| O Ermitão é, sem dúvida, um dos arcanos menos alegóricos do Tarô. A imagem de um peregrino em hábito de monge, transportando um cajado, pode ser encontrado em dezenas de iluminuras em manuscritos dos séculos XV e XVI. O único detalhe que o afasta desta monotonia é a lâmpada que leva na mão direita: por ela imagina-se que seja uma ilustração da conhecida história de Diógenes em busca de um homem. Esse relato foi muito popular na alta Idade Média e no Renascimento e, de fato, vários modelos renascentistas do Tarô chamam o Arcano VIIII de Diógenes. |
|
| Alguns estudiosos acreditam que boa parte do simbolismo do Ermitão liga-se aos princípios fundamentais desse filósofo cínico: desprezo pelas convenções e vaidades, isolamento, renúncia à transmissão pública do conhecimento. |
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| Mas este mutável personagem teve ainda outras representações: no tarocchino de Bolonha, aparece com muletas e asas; no de Carlos VI, tem uma ampulheta no lugar da lâmpada (o que o associa a Cronos ou Saturno, medidores do tempo). |
|
| Outra interpretação surge ainda do aparente erro ortográfico que se pode ver no Tarô de Marselha, onde a carta figura comoL'Hermite em lugar de L'Ermite. Etimologicamente, o nome não derivaria então do grego eremites, eremos = deserto, mas provavelmente de Hermes e seu polivalente simbolismo. A esse respeito, podemos lembrar que é precisamente a Thot, equivalente egípcio de Hermes, que Gébelin e seus seguidores atribuem a invenção do Tarô. |
|
| Wirth explica os atributos do Eremita como termo final do terceiro ternário do Tarô, relacionando-o com os arcanos VII e VIII, que o precedem nesse ternário. Nessa relação, O Carro aparece como o homem jovem e impaciente para realizar a obra do progresso, queA Justiça se encarrega de retardar, amiga como é da ordem e pouco amante das improvisações; O Ermitão seria o conciliador deste antagonismo, evitando tanto a precipitação quanto a imobilidade. |
|
|
|
| Muitos autores interpretam o seu significado como oposto e complementar ao do Arcano V (O Pontífice): o Eremita não é o codificador da liturgia, o responsável executivo de uma igreja, o pastor de um rebanho: seu pontificado é silencioso e sutil, seus discípulos são escolhidos. Na relação iniciática, é evidente que representa o “guru” e por isso foi definido como “o artesão secreto do futuro”. |
|
No sentido negativo, o Arcano VIIII não é apenas a carta dos taciturnos; por sua minuciosidade e ritualismo, pode também ser relacionado aos temperamentos obsessivos.
| X. A Roda da Fortuna (A Roda do Destino) |
|
| O Arcano dos Ciclos e da Natureza caída |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha-Camoin |
|
| |
Sobre o aro de uma roda de seis raios, suspensa no ar por um apetrecho de madeira, seguram-se três animais estranhos. O fundo é branco; o chão está cortado por listas negras. A roda se apóia sobre dois pés ou suportes paralelos; o da esquerda não chega ao eixo. Do centro da roda saem seis raios – azuis até menos da metade e em seguida brancos – que se fixam na parte interna do aro: dois deles formam ângulo reto com o chão; os outros quatro representam um xis (ou o dez romano, número da carta, ou ainda uma cruz de Santo André). À direita, um animal intermediário entre cachorro e lebre (com patas traseiras que não combinam com esses animais) parece subir pela roda; à esquerda, uma espécie de macaco desce de cabeça para baixo. Na parte superior, uma plataforma suporta uma figura que pode ser vista como uma esfinge coroada; três das suas patas repousam sobre a base, enquanto a pata anterior esquerda empunha uma espada desembainhada. |
|
| Significados simbólicos |
|
| Os ciclos sucessivos na natureza e na vida humana. As fases da manifestação, o movimento de ascensão e de declínio. |
|
|
| A mobilidades da coisas, as Influências lunares e mercurianas. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
Boa sorte, louvor, honra. Alternativas da sorte. Instabilidade. Esperteza, presença de espírito que não deixa escapar as boas oportunidades. Iniciativa feliz, adivinhação de ordem prática, sorte. Êxito casual, como o ganho na loteria. Espontaneidade, disposição inventiva. Animação, brio, bom humor. Mental: Lógica, regularidade. Juízo equilibrado e sadio. Emocional: Traz animação e reforça os sentimentos. Físico: Os acontecimentos não serão estáveis, porque necessitam de uma mudança, uma evolução. Esta mudança tende a ser para melhor, no sentido do desenvolvimento. Segurança na dúvida. Do ponto de vista da saúde: não haverá problemas circulatórios. Bons augúrios para um futuro casamento. Sentido negativo: A transformação se fará com dificuldade, mas poderá ocorrer quando fizer falta. É preciso modificar desde o princípio, partir de outras bases. Descuido. Especulação, jogo, abandono ao azar. Insegurança. Imprevisão, caráter boêmio, pouca seriedade. Situação instável: ganhos e perdas. Aventuras, riscos. Diminuição da sorte. |
| |
| |
|
|
| História e iconografia |
|
| Uma das alegorias mais antigas e populares, a imagem que reproduz o Arcano X causa uma impressão estranha ao observador contemporâneo. Isto se deve ao fato de que nos últimos séculos a iconografia do tema tornou-se puramente verbal: qualquer um entende o conceito de “roda do destino”, mas dificilmente se faz dela uma representação visual. Desde a antigüidade clássica, contudo, até o Renascimento, foi justamente o contrário que aconteceu. Em vários textos romanos descreve-se o Destino como uma mulher cega, louca |
e insensível, que atravessa a multidão caminhando sobre uma pedra redonda (para simbolizar a sua instabilidade); a roda aparece com freqüência nos sarcófagos, como evidente alusão ao caráter cíclico da vida. Até o final do primeiro milênio não se encontram outros exemplos valiosos sobre o tema, mas depois de uns séculos ele ressurge com maior esplendor que nunca. É já na sua plenitude iconográfica que o reencontramos a partir de meados do século XIII em rosetas de várias catedrais góticas (Amiens, Trento, Lausanne) e de numerosas igrejas: pequenas figuras, representando os momentos e estados da vida, que sobem e descem pelos raios de uma roda. Um exemplo muito antigo pode ser visto no Hortus deliciarum, de Herrade de Landsberg, abadessa do claustro de Santa Odília (Estrasburgo), morta em 1195. Nesta imagem completa, como em muitas posteriores,quatro personagens, que aparecem representados como reis, são movidos pela roda que é manejada pelo Destino ou Fortuna em pessoa. As legendas que acompanham os personagens não deixam dúvida sobre o significado da alegoria: Spes, regnabo(esperança, reinarei), diz o rei ascendente da esquerda;Gaudium, regno! (Alegria, reino!), exclama o que se encontra sobre a plataforma superior; Timor, regnavi... (Temor, reinava...) | |
|
|
|
|
Tarô Visconti Sforza 1450 (restaurado) |
|
| |
|
murmura o da direita, que desce de cabeça para baixo; enquanto que o quarto, que foi atirado da roda e jaz na terra, aceita a evidência da sua condição: Dolor, sum sine regno(Dor, estou sem reino). É evidente que, numa leitura alegórica, os quatro personagens não passam de apenas |
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| | um, submetido às variações do destino. O simbolismo deste personagem quatro-em-um refere-se também às fases da lua e às idades do homem (infância, juventude, maturidade, velhice). A substituição dos reis por animais ou monstros é um pouco mais tardia (século XIV, ou final do XIII), mas a idéia que este arcano simboliza é certamente mais antiga que a civilização ocidental. No livro de Ezequiel, diz Wirth, encontra-se a explicação transparente do Arcano X. No plano simbólico, segundo esse autor, muitos dados podem ser extraídos do simbolismo geral da roda. “Refere-se em última instância à decomposição da ordem do mundo em duas estruturas essenciais e distintas: o movimento rotatório e a imobilidade; a circunferência da roda e seu centro, imagem do 'motor imóvel' aristotélico”. O aspecto solar e zodiacal do simbolismo da roda a relaciona sem dúvida com o conceito dos ciclos (o dia, as estações, a vida do homem), ou seja, daquele que nasce para morrer, mas que também morre para ressuscitar. |
|
René Guénon afirma que a roda é símbolo de origem céltica e assinala seu evidente parentesco com as flores emblemáticas (rosa no Ocidente, lótus no Oriente), com as rosetas das catedrais góticas e, em geral, com as figuras mandálicas. No taoísmoaparece como metáfora do processo ascendente-descendente (evolução e involução, progresso espiritual e regressão).
XI. A Força |
|
| O Arcano da Virtude e do predomínio da Qualidade |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha-Camoin |
|
| |
| Uma mulher abre com as duas mãos as mandíbulas de um leão. É vista de três quartos e olha para a direita; o leão, por sua vez, está de perfil. A mão direita da mulher, está apoiada no focinho do leão, enquanto que a esquerda segura o maxilar inferior. |
|
| O personagem veste uma saia azul e uma capa ou manto vermelho, com laterais de tamanhos diferentes, já que a da direita chega ao chão enquanto que a da esquerda não passa da cintura. |
|
| Todas as partes visíveis de seu corpo estão representadas em cor carne; tem ainda um chapéu, cuja forma lembra o do Prestidigitador (O Mágico). |
|
| Do leão, vê-se apenas a cabeça, a juba e as patas dianteiras. O fundo e o chão são incolores. Em algumas versões, a sandália da mulher, que surge debaixo da roda da saia, parece apoiar-se no ar. |
|
| Significados simbólicos |
|
| Virtude. Coragem. Potência anímica. Integração harmoniosa das forças vitais. |
|
| Força moral, autodisciplina, controle |
|
|
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Energia moral, calma, coragem. Espírito que domina a matéria. A inteligência que doma a brutalidade. Subjugação das paixões. |
|
| Lucro nos empreendimentos empresariais. |
|
| Mental: Esta carta traz uma grande agudeza para distinguir entre o verdadeiro e o falso, o útil e o inútil, e uma clareza precisa na avaliação. |
|
| Emocional: Domínio sobre as paixões, poder de conquista. Para uma mulher que está para se casar: conseguirá que sua personalidade não seja anulada pelo afeto que sente pelo marido. Proteção afetuosa. |
|
| Físico: Vontade para vencer os obstáculos, domínio da situação; faz valer seus legítimos direitos. Capacidade para tomar direção em todos os assuntos materiais. |
|
| Sentido negativo: A pessoa não é dona da sua força; é brutal, desatenta, deixa-se levar pelo poder em vez de utilizá-lo.Os fatos ou as pessoas o abatem; sua força será aniquilada, e será vítima de forças superiores. Impaciência. |
|
| Cólera, ardor incontido. Insensibilidade, crueldade. |
| |
| |
|
|
| Luta, guerra, conquista violenta. Operação cirúrgica. Veemência, discórdia. Incêndio. |
|
| História e iconografia |
|
| A Força, simbolizada pelo homem triunfante sobre os animais ou sobre a natureza, foi amplamente glorificada na literatura antiga e na arte medieval. No Antigo Testamento aparece a história de Sansão, e na mitologia greco-latina a saga dos trabalhos deHércules. A batalha do herói com o leão de Neméia foi usada provavelmente como alegoria da força desde a antigüidade mais remota: nas escavações realizadas nos arredores de Tróia, encontrou-se um capacete do século VII a.C. com o desenho de um homem que abre com as mãos as mandíbulas de um leão. A Idade Média recorre com freqüência a esta imagem, como símbolo da força moral e espiritual, usando como protagonista Sansão ou então o Rei Davi. |
|
| No Tarô, porém, é uma mulher que representa a Força, na mais difundida alegoria do leão (versão de Marselha), incluindo as colunas (Tarô de Carlos VI). O antecedente mais ilustre |
| desta transposição alegórica é a lenda deCirene, a ninfa caçadora que envergonhou e seduziu o instável Apolo. |
|
| Píndaro conta de uma excursão do deus até o monte Pelion, na Tessália, para a qual ele teria partido excepcionalmente bem armado, a fim de se prevenir dos perigos que poderiam lhe acontecer em tão longa travessia; ali encontrou Cirene, que “sozinha e sem uma lança combatia um imenso leão..." |
|
| Embora o Arcano XI seja uma ilustração perfeita desta lenda, não se encontra um só exemplo que a reproduza nos manuscritos medievais. Iconograficamente, a carta da Força seria assim uma das contribuições mais originais do Tarô. |
|
| Uma instrução curiosa, escrita na margem de uma página de La Somme du Roi, manuscrito |
| |
|
|
|
|
| Cirene coroada por Líbia. Baixo relevo do séc. IV |
|
| www.ed-dolmen.com |
| |
|
| do ano de 1295, orienta o pintor que iria ilustrar os textos. Embaixo do número 12, pode-se ler: “Aqui vai uma dama de pé que domina um leão. O nome da dama é Força”. Mas a miniatura nunca foi executada. |
|
| A dama serena e triunfante do Arcano XI encerra a primeira metade do Tarô; representa, assim, a culminação da via seca e racional inaugurada pelo Prestidigitador. Do ponto de vista iconográfico, liga-se a ele pela expressão corporal – de pé, em atitude de ação repousada e, |
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| fundamentalmente, pelo chapéu que segue no seu desenho o signo do infinito. |
|
| A dama serena e triunfante do Arcano XI encerra a primeira metade do Tarô; representa, assim, a culminação da via seca e racional inaugurada pelo Prestidigitador. Iconograficamente, liga-se a ele pela expressão corporal – de pé, em atitude de ação repousada e, fundamentalmente, pelo chapéu que segue no seu desenho o signo do infinito. |
|
| Um exercício curioso de “adição e redução mística” permite relacionar as quatro figuras femininas da primeira parte do Tarô. Com efeito: 3 (Imperatriz) + 8 (Justiça) = 11 (Força), que se reduz a: 11 = 1 + 1 = 2 (Sacerdotisa). Partindo da via seca (masculina) dos arcanos, este esquema feminino (úmido e intuitivo) se presta a múltiplas especulações combinatórias. |
|
| Alguns estudiosos vêem na Força uma clara alusão zodiacal:Leão vencido por Virgem, ou, o que dá no mesmo, o calor ardente, que corresponde à plenitude do verão, domado pela antecipação serena do outono (no hemisfério norte). |
|
|
| Neste sentido é preciso interpretar a parábola esotérica do Arcano XI: o personagemnão mata o leão, mas o doma; a sabedoria consiste em não desprezar o inferior, em não aniquilar o que é bestial, mas sim em utilizá-lo. Não é outro o resultado natural que se depreende da Grande Obra alquímica. |
| XII. O Pendurado (O Enforcado) |
|
| O Arcano da Fé, da aspiração Espiritual |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Marselha-Camoin |
|
| |
|
| Um homem está suspenso, pelo pé, numa trave de madeira que se apóia em duas árvores podadas. Os dois suportes são amarelos e cada um conserva seis tocos da poda, pintados de vermelho; terminam em forquilha, sobre as quais repousa o pau superior. São verdes as duas bases das quais nascem as árvores da provação, e nos quais brotam plantas de quatro folhas. A corda curta que suspende o homem desce do centro da barra transversal. |
|
| O personagem veste uma jaqueta terminada em saiote marcado por duas meias-luas, à direita e à esquerda, que podem ser bolsos. O cinto e o colarinho da jaqueta são brancos, assim como os dez (ou nove) botões – seis acima e quatro (ou três) abaixo da cintura. |
|
| A cabeça do Enforcado encontra-se no nível da base das árvores. Suas mãos estão ocultas atrás da cintura. Naturalmente, a perna pela qual está suspenso – a esquerda – permanece esticada, enquanto que a outra está dobrada na altura do joelho, cruzando por trás a perna esquerda. |
|
| Significados simbólicos |
|
| Abnegação. Aceitação do destino ou do sacrifício. |
|
|
|
| Provas iniciáticas. Retificação do conhecimento. Gestação. Exemplo, ensino, lição pública. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Desinteresse, esquecimento de si mesmo. Submissão ao dever, sonhos generosos. Patriotismo, apostolado. Filantropia, entrega a uma causa. Sacrifício pessoal. Idéias voltadas para o futuro. Semente. |
|
| Mudança de vida, iniciação, abertura espiritual, sacrifício por algo valioso. Paz interior, nova visão do mundo. |
|
| Mental: Possibilidades diversificadas, flutuações. Indica coisas em processo de amadurecimento; não define nem conclui nada. |
|
| Emocional: Falta de clareza, indecisão, particularmente no campo afetivo. |
|
| Físico: Abandono de algumas coisas, renúncias, projetos duvidosos. Impedimento momentâneo para a ação. Um assunto iniciado é abandonado e só poderá ser resolvido através de uma ajuda. Do ponto de vista da saúde: transtornos circulatórios. |
|
| Sentido negativo: Êxito possível, mas parcial, sem satisfação nem prazer, sobretudo em projetos de ordem sentimental. |
|
| Reticências, planos ocultos. Resoluções acertadas, mas que não se executam; projetos abortados; plano bem concebido que fica na teoria. Promessas não cumpridas, amor não correspondido. |
| |
| |
|
| Impotência. Perdas. Auto-renúncia, passividade. Os bons sentimentos serão desviados para empreendimentos condenáveis. |
|
| História e iconografia |
|
| Em 1591 – tomando como testemunho a História Eclesiástica de Eusébio – Galônio descreveu as torturas sofridas pelos mártires dos primeiros séculos da cristandade. “As mulheres cristãs – escreve – eram freqüentemente suspensas pelo pé durante todo um dia, e os algozes faziam de tal modo que suas partes mais íntimas ficavam a descoberto, de maneira a mostrar o maior desprezo possível à santa religião de Cristo”. |
|
|
|
|
|
Crucificação de Pedro. Afrescoi de Filippino Lippi (1457-1504), na Cappellla Brancacci, Florença, Italia. |
|
| www.jesuswalk.com |
|
| |
| A suspensão pelo pé foi amplamente executada pelos supliciadores romanos e há testemunhos também de vítimasmedievais. Uma canção de gesta do século XIII informa que este castigo foi aplicado a um trovador por um dos duques de Brabante, quando este o surpreendeu em diálogo mais que musical com a duquesa. |
|
| Mas o enforcamento pelo pescoço, mortal, tem histórias mais remotas e, no caso deJudas, trata-se de um gesto auto-imposto na sequência do sacrifício que fez para que se cumprissem as profecias. |
|
| Uma tradição que vem dos primórdios da Igreja cristã é a de que um outro apóstolo,Pedro, teria insistido em ser crucificado de cabeça para baixo por não se sentir digno de reproduzir o suplício de Cristo. |
|
| No que diz respeito às artes gráficas, há inúmeras miniaturas dos séculos XIII e XIV com reproduções de santos e mártires pregados pelos pés a uma barra elevada. Mas é preciso chegar aos fins do século XV para descobrir uma imagem análoga à do Enforcado do Tarô. |
|
| De outro ponto de vista, pode-se dizer que a Antigüidade nos deixou vários testemunhos de figuras invertidas que em nenhum caso poderiam ser ligadas ao suplício. Esta postura |
|
|
| é adotada com freqüência por divindades nuas assírio-babilônicas, nos cilindros de argila que reproduzem cenas de conjunto. |
|
| É possível imaginar que as deusas nesta posição significavam outra coisa: propunham uma leitura ritual que, agora, parece absurda ou incompreensível. |
|
| Alguns estudiosos lembram, a esse respeito, os ensinamentos que atribuem ao homem o papel de estabelecer a ligação entre o Céu e a Terra, num espaço definido que o preserva |
| de influências e contaminações. “Toda suspensão no espaço participa do isolamento místico, sem dúvida relacionado à idéia de levitação e de vôo onírico”. |
|
| Muitas lendas, de diferentes origens, atribuem aos enforcados características mágicas e os dotam de vidência e mediunidade. |
|
| Para Wirth, interessado pelo simbolismo iniciático, o protagonista do Arcano XII é homólogo ao do Prestidigitador (I), já que também inicia uma das vias, mas partindo do extremo oposto do caminho. Neste sentido o vê como o princípio de intuição pelo qual o ser humano pode alcançar um resplendor de divindade: como colaborador da grande obra que mudará para o bem a carga negativa do universo; como a vítima sacrifical para a redenção. |
|
| Atribuem-se ainda ao arcano virtudes divinatórias e telepáticas; é com freqüência relacionado com a arte e a utopia. Alguns o vêem como arcano possessivo, mas é necessário compreendê-lo num sentido puramente idealista, como manifestação de amor que carece de objeto individual (amor ao próximo). |
|
| Uma especulação interessante pode ser feita partir de seu número na |
| |
|
|
ordem do Tarô, que o relaciona ao décimo-segundo signo do zodíacao, Peixes, ou ainda ao conjunto do simbolismo zodiacal e ao dodecadenário: os doze signos e os doze meses do ano, os doze apóstolos, as doze tribos de Israel...
| XIII. A Morte (ou Arcano sem Nome) |
|
| O Arcano das Transmutações e da Vida Eterna |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
| |
| Esta carta, comumente designada como “Morte”, não tem nome algum inscrito no tarô de Marselha ou em suas suas variantes mais recentes. No entanto, em jogos similares franceses, do século 17, o título "La Mort" está presente. Veja abaixo a carta de Jean Noblet. |
|
| Um esqueleto revestido por uma espécie de pele tem uma foice nas mãos. Do chão negro brotam plantas azuis e amarelas, e diversos restos humanos. O fundo não está colorido. |
|
| No primeiro plano, à esquerda, uma cabeça de mulher; à direita, uma cabeça de homem com uma coroa. |
|
| Um pé e uma mão aparecem também no chão; outras duas mãos – uma mostrando a palma e outra as costas – brotam atrás, ultrapassando a linha do horizonte. |
|
| O esqueleto está representado de perfil e parece dirigir-se para a direita. Maneja a foice, sobre a qual apóia as duas mãos. Em algumas variantes, seu pé direito não está visível. |
|
| Para o iniciante, mostra-se como a carta mais temível, mas os estudos simbólicos ajudam a entender um outro sentido no plano da evolução humana. |
|
|
|
| Significados simbólicos |
|
| Grandes transmutações e novos espaços de realização. |
|
| Dominação e força. Renascimento, criação e destruição. |
|
| Fatalidade irredutível. Fim necessário. |
|
|
|
|
|
| La Mort (A Morte) |
|
| Tarô Jean Noblet (1650) |
| |
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
Fim de uma fase. Abandono de velhos hábitos. Profundidade, penetração intelectual, pensar metafísico. Discernimento severo, sabedoria drástica. Resignação, estoicismo, dom para enfrentar situações difíceis. Indiferença, desapego, desilusão. |
|
| Mental: Renovação de idéias, total ou parcial, porque algo vai intervir e tudo transformar; como um fenômeno catalisador ou um corpo novo que modifica totalmente a ação do corpo atual. |
|
| Emocional: Afastamento, dispersão. Destruição de um sentimento, de uma esperança. |
|
| Físico: Morte, perdas, imobilidade. Completa transformação nos negócios ou atividades. |
|
| Sentido negativo: Do ponto de vista da saúde, estagnação de enfermidade ou processo. A morte poderá ser evitada, mas em troca de uma lesão incurável. Segundo sua posição, pode significar a morte, em seus múltiplos matizes, mas também maus acontecimentos, más notícias. |
|
|
|
Prazo fatal. Xeque-mate inevitável, mas não provocado pela vítima. Ânimo baixo, pessimismo, perda de coragem. Interrupção de um processo para começar de modo diametralmente oposto. |
|
| História e iconografia |
|
| E provável que a alegoria da morte representada como um esqueleto com a foice, seja original do Tarô; se isto for verdade, trata-se de uma das contribuições fundamentais feitas pelas cartas à iconografia contemporânea, considerando a ampla popularidade desta metáfora macabra. |
|
| Van Rijneberk divide o estudo deste arcano em três aspectos: o número treze, oesqueleto, a foice. Como emissário de uma premonição sombria, o treze tem seu antecedente cristão nos comensais da Última Ceia, de onde a tradição extraiu um conto bastante popular da Idade Média: quando treze pessoas se sentam à mesa, uma delas morrerá em breve. |
|
| Esta superstição seria herdeira de outras versões mais antigas: Diodoro da Sicília, contemporâneo do imperador Augusto, explica desse modo a morte de Filipe da Macedônia, cuja estátua havia sido colocada junto as dos 12 deuses principais, dias antes de ser assassinado. |
|
| Simbolicamente, o 13 é a unidadesuperadora do dodecadenário, ou seja, a morte necessária de um ciclo completo, que implica também – ainda que este aspecto tenha sido esquecido na transmissão popular – a idéia conseqüente de renascimento. |
|
| Na arte cristã primitiva não há traços deste simbolismo durante os primeiros séculos, o que não parece estranho se considerarmos as idéias centrais dos catecúmenos, ou seja, a morte entendida como pórtico de |
| |
|
|
|
| Dança da morte |
|
| Gravura em madeira (1493) - www.deathreference.com |
|
|
| uma vida melhor, a confiança na proximidade do Juízo Final (e a conseqüente ressurreição da carne); a absoluta falta de medo frente a um estado transitório. |
|
| O esqueleto propriamente dito só aparece em todo o seu esplendor nas Danças da morte, disseminadas pelos cemitérios e claustros europeus, quase que simultaneamente, e com certeza não antes do séc. XV. |
|
|
|
|
|
| As pestes, no final do séc. XIV, evocam a morte inelutável. Reis ou vassalos, todos são afetados. |
|
| Danse Macabre de Bernt Notke, 1440-1509, na Igreja de S. Nicolau, em Tallinn, Estônia. (www.wikipedia.com) |
| |
|
|
|
| O esqueleto propriamente dito só aparece em todo o seu esplendor nas Danças da morte, disseminadas pelos cemitérios e claustros europeus, quase que simultaneamente, e com certeza não antes do séc. XV. |
|
| O tema das composições desse período mostra-se idêntico em todos os lugares: o esqueleto se apodera (o matiz está apenas no grau de violência ou gentileza) de criaturas humanas de ambos os sexos, de qualquer idade e condição. |
|
| Outro elemento que as Danças da morte têm em comum é que todas são posteriores ao Tarô, de cuja popularidade puderam extrair o encanto de suas imagens. |
|
|
|
|
Oswald Wirth também não coloca nome na carta 13 |
| |
| Nestas danças, no entanto, não há esqueletos com foices, mas sim com diversos objetos (uma espada, um arado, um par de tesouras, um arco e flechas) que se referem em geral ao ofício da pessoa que será levada pela morte. |
|
| Em Joel (4,13), Mateus (13,39), Marcos (4,29) e no Apocalipse (14,14-20) podem ser encontradas metáforas bíblicas em que se fala da foice como instrumento de justiça empunhado por Jeová, pelo Filho do Homem e, mais tarde, pelos anjos: como derivação deste princípio moral. |
|
| Os esotéricos não vêem a morte como falha ou imperfeição: as formas se dissolvem, variam de aparência quando se tornam incapazes de servir ao seu destino. Desse modo, entre oImperador e a Morte (primeiros termos do segundo e do quinto ternário, respectivamente), há apenas uma diferença de matizes: ao esplendor máximo do poder e da matéria sucede sua extinção, que é uma conseqüência lógica e também uma necessidade. Como parábola do processo iniciático em oposição à vida corrente, é talvez o arcano mais explícito: “O profano deve morrer– lembra Wirth – para que renasça a vida superior que a Iniciação concede”. |
|
|
|
A morte guarda relações simbólicas com a terra, com os quatro elementos, e com a gama de cores que vai do negro ao verde, passando pelos matizes terrosos. Também é associada ao esterco, menos pelo que este possa ter de desagradável do que pelo processo de transmutação material que representa.
| XIV. A Temperança |
|
| O Arcano da Inspiração e da Alquimia |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
| |
| Um anjo com rosto feminino derrama o conteúdo de um vaso em outro. O personagem é visto de frente, com o rosto ligeiramente inclinado para a esquerda e para baixo, e o tronco voltado na mesma posição. |
|
| Sua vestimenta tem várias cores: azul, de cada lado do corpete, e na metade esquerda da saia; vermelho, nas mangas e na outra parte da saia. As asas são azuis (ou cor de pele, na edição Grimaud). Os pés permanecem ocultos pelas pregas da saia. |
|
| A flor no topo da cabeça, o botão amarelo no meio do peito (ou um panejamento dourado, em outras versões), salientam chacras ativos do personagem. |
|
| Três linhas onduladas unem os vasos que o anjo segura; o líquido derramado pode representar as energias em transmutação. |
|
| Na edição Camoin (ilustração ao lado), a barra do vestido, em amarelo, representaria serpentes entrelaçadas, sob controle do anjo, aos seus pés. Ou seja, representa seu vínculo com a circulação das energias em diferentes níveis de manifestação. |
|
|
|
|
| Significados simbólicos |
|
A elaboração cuidadosa das polaridades. A transmutação dos elementos e a alquimia. Renovação da vida, abertura às influências celestes, circulação, adaptação, flexibilidade. Serenidade. Harmonia. Equilíbrio. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
|
| Tolerância, paciência, praticidade, felicidade. Aceitação dos acontecimentos, flexibilidade para adaptar-se às circunstâncias. Educação, trato social. Caráter elástico para enfrentar as transformações. Temperamento descuidado. |
|
| Mental: Espírito de conciliação, ausência de paixões no julgamento; dá o sentido profundo das coisas, como representante de um princípio eterno de moderação. Exclui a rigidez, o emperramento. Corresponde à flexibilidade e ao plástico. |
|
| Emocional: Os seres se reconhecem e se encontram por suas afinidades. Sob a influência desta carta são felizes, mas não evoluem e não conseguirão se livrar um do outro. |
|
| Físico: Conciliação nos negócios, atividades e empreendimentos. Pesam-se os prós e contras, encontra-se a maneira de estabelecer um compromisso, mas se ignora se o empreendimento será ou não coroado de êxito. Reflexão, decisão que não pode ser tomada de imediato. |
|
| Do ponto de vista da saúde: enfermidade difícil de curar, porque se alimenta de si mesma. |
|
| Sentido negativo: Desordem, discordâncias. Indiferença. Falta de |
| |
| |
|
| personalidade, passividade. Inconstância, humor irregular, desequilíbrio. Tendência a se deixar levar pela corrente, submissão à moda e aos preconceitos. Resultados não conformes às aspirações. Derramamento, saída, fluxo involuntário. As coisas seguem o seu curso. |
|
| História e iconografia |
|
| A mulher que derrama líquido é uma alegoria muito comum durante a Idade Média para representar a virtude da temperança: supunha-se que misturava água no vinho para diminuir os seus efeitos. Curiosamente, a mesma imagem serviu durante os primeiros séculos do cristianismo para ilustrar o contrário: o milagre das bodas de Canaã, onde a mulher – por ordem de Jesus – vira a água que vai se transformar em vinho. |
|
| Com outros significados pode ser encontrada nos versos de Horácio: “O cântaro reterá por longo tempo o perfume que o encheu pela primeira vez”. |
|
| Mistura de anjo e mulher, A Temperança evocou sempre, para os investigadores do Tarô, o mito dohermafrodita. Tema recorrente e vastíssimo, por um de seus aspectos – que é o que aqui interessa – a androginia tem sido considerada desde tempos antigos como premonição feliz. Isto faz da Temperança uma carta amável, do ponto de vista adivinhatório, cuja presença alivia a densidade do oráculo. |
|
| Arcano de reunião, e portanto de equilíbrio – aconiunctio oppositorum, em sua fase anterior à bissexualidade – onde o derramar do líquido já foi interpretado como metáfora das transformações: a passagem do espiritual ao físico, do sentimento à razão. |
|
| Do ponto de vista astrológico está em paralelo com as representações aquarianas, que por sua vez guardam correspondência com o simbolismo de Indra, divindade hindu da purificação. |
| |
|
|
|
|
| Temperance, Pedro del Pollaiuolo, 1470 |
|
| www.aiwaz.net |
|
| |
|
|
|
|
 |
|
| Tarô de Oswald Wirth |
|
| |
| Wirth relaciona a androginia da Temperança ao elemento relacionado ao quinto ternário do Tarô, que provém da morte assexuada (XIII) e culmina no Diabo bissexual (XV). É preciso assinalar também sua localização como último termo do segundo setenário, que corresponde à Alma ou psique, plano da personalidade fluente, flexível e instável na natureza, relacionada às águas em quase todas as teofanias, assim como o Espírito é associado à luz (fogo, ar) e o Corpo à terra. |
|
| O tema do derramamento e dos vasos gêmeos e opostos dominam, por outro lado, as especulações sobre os prodígios terapêuticos. Neste aspecto, o Arcano XIIII é claramente ocurador, o agente reparador e reconstituinte, aquele que verte a harmonia universal sobre o desequilíbrio individual. Como o Eremita, lembra os médicos, curandeiros e charlatães; mais ainda, lembra conselheiros, confessores e terapeutas. |
|
| Resta estabelecer uma leitura da Temperança no contexto do inesgotável simbolismo aquático, pois se refere à matéria unívoca (o oceano primordial), à corrente circulatória que mantém a vida (chuva, seiva, leite, sangue, sêmen), à mãe (o meio aquoso enquanto |
|
|
elemento pré-natal) e às imersões como rito de morte e ressurreição (batismo).
|
| XV. O Diabo |
|
| O Arcano da Contra-inspiração e da Sedução |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
| |
| Três personagens estão representados de pé. No meio, sobre um pedestal vermelho em forma de cálice, um hermafrodita com asas e chifres; embaixo, uma figura feminina e outra masculina, pequenas e dotadas de atributos animais, presas, por uma corda que lhes passa ao pescoço, a um aro que se encontra no centro do pedestal. |
|
| O personagem central, despido, veste somente um cinto vermelho; tem na cabeça uma curiosa touca amarela, da qual sobem dois chifres de veado; duas asas amarelas (ou azuis, na ed. Grimaud), de desenho semelhante à dos morcegos, brotam das suas costas. Tudo indica que o personagem é do sexo masculino, mas seus seios estão desenvolvidos como os de uma mulher. Suas mãos e pés apresentam características simiescas; a mão direita, erguida, mostra o dorso; a esquerda segura a haste de uma tocha. O par acorrentado é visto de três quartos. Estão completamente nus, mas têm uma touca vermelha da qual sobem chifres negros. |
|
| Têm rabo, patas e orelhas de animal e escondem as mãos atrás das costas. No nível em que se encontram, o chão é preto, mas na altura do pedestal torna-se azul (ou amarelo) com listas negras. O fundo é incolor. |
|
|
|
| Significados simbólicos |
|
As provas e provações. As tentações e seduções. Magias. Desordem. Paixão. Luxúria. Dependência. Intercâmbio, eloqüência, mistério, força emocional. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Paixões indomáveis. Atração sexual. Ação mágica, magnetismo. Capacidade milagreira. Poder oculto, exercício de influências misteriosas. |
| Proteção contra as forças obscuras e os encantamentos. |
|
| Mental: Grande atividade, mas totalmente egoísta e sem preocupação pela justiça. |
|
| Emocional: Pluralidade, diversidade, avidez, inconstância. Busca em todas as direções para atrair tudo. Sem a menor preocupação com o próximo. Libertinagem. |
|
| Físico: Grande irradiação neste plano, em particular no domínio material e nas realizações concretas. Poderosa influência sobre os outros. |
|
| Forte atração pelo poder material. |
|
| Tem, contudo, uma deficiência: todo o sucesso que promete tende a serem obtidos por vias censuráveis. Desta forma a fortuna será feita e os delitos têm grande probabilidade de permanecer impunes. |
|
| Inclui também a punição: de acordo com a sua relação com as outras cartas, pode significar que os sucessos serão efêmeros e que o castigo virá na seqüência. |
|
| Do ponto de vista da saúde: grande instabilidade nervosa, transtornos psíquicos; aparição de enfermidades hereditárias. |
| |
|
|
|
| Sentido negativo: A ação parte de uma base má e seus efeitos podem ser calamitosos. Desordem, inversão de planos, coisas obstruídas. Do ponto de vista da saúde: ampliação do mal, complicações. Disfunção. Superexcitação, sensualidade. Ignorância, intriga. Emprego de meios ilícitos. Enfeitiçamento, fascinação repentina, escravidão e dependência dos sentidos. Debilidade, egoísmo. |
|
| História e iconografia |
|
| Durante a baixa Idade Média o Diabo era representado freqüentemente como umdragão ou uma serpente, imagem derivada, sem dúvida, de seu papel no Gênese. Por um processo |
|
|
|
| São Miguel e o Dragão |
|
| Mont St. Michel - França |
| |
| simbiótico – característico da iconografia – Eva e o Diabo se fundiram com freqüência na figura da serpente com cabeça de mulher: isto pode ser visto quase sempre nas ilustrações dos mistérios franceses que falam da Queda. |
|
| O desenvolvimento antropomórfico, que levou o Diabo a se converter na figura que conhecemos tem sua origem, provavelmente, nas tradições talmúdicas e nas lendas pré-cristãs, segundo as quais a serpente edênica teria tido mãos e pés de homem, membros que perdeu como castigo por sua maldita intervenção no drama do Paraíso, ficando condenada a arrastar-se até o fim dos tempos. |
|
| De modo similar o Diabo aparece no Apocalipse de Abraão, onde o Tentador é descrito como um homem-serpente, descrição retomada por Josefo e por boa parte dos autores judeus dessa época. |
|
| Já no Antigo Testamento (Jó 1,6-12 e 2,1-7) menciona-se esta humanização de Satã, e em Mateus (4, 3-11) aparece com toda clareza o antropomorfismo do personagem. Ele é assim descrito num manuscrito de Gregório de Nicena, onde toma a forma de um homem jovem, alado e nu da cintura para cima. |
|
|
|
| É somente no fim do primeiro milênio que o Diabo sofre a mais cruel de suasmetamorfoses, |
| a que acabou por transformar o mais formoso dos anjos em sinônimo de abominação e horror. |
|
| Van Rijneberk atribui aos miniaturistas anglo-saxões essa mudança iconográfica, que respondia à simplicidade analógica da época. Se o Diabo continha a soma de todos os pecados e escândalos, seria lógico, dessa forma, que fosse representado como o apogeu de feiúra e pavor. |
|
| O homem com garras das figuras mais tênues sofreu a inclusão de chifres, dentes enormes, pêlos, cascos de bode, seios enrugados, rabo que terminava em seta. Assim aparece nos manuscritos alemães dos séculos X e XI, e no Missel Oxonien do bispo Léofric (960-1050). O diabo da lâmina do Tarô – um morcego hermafrodita – mostra-se como herdeiro dessa representação. |
|
| Van Rijneberk destaca o sentido metafísico de Satã para os Pais da Igreja, longe ainda dessas representações. Entre os séculos III e IV, Atanásio relatou as fadigas que costumavam acompanhar os tentados: o aspecto doMaligno produzia mais angústia do que repulsa; sua voz era terrível e seu movimento oculto como o de um assassino. |
| |
|
|
|
| São Miguel e o Diabo |
|
| Normandia, 1480 |
|
|
|
|
|
|
| Primeira tentação de Jesus Cristo |
|
| Copenhague, 1222 |
| |
| Tanto Cirlot como Oswald Wirth – a partir de seus respectivos planos de observação – evitam entrar no complexo campo da demonologia ao comentarem o Arcano XV. |
|
| Assim, o primeiro destes autores se limita a compará-lo ao “Baphomet dos templários, bode na cabeça e nas patas, mulher nos seios e braços” e a mencionar que o personagem tem como finalidade “a regressão ou a paralisação no fragmentado, inferior, diverso e descontínuo”. |
|
| Oswald Wirth, por outro lado, afirma que o Diabo é o inimigo do Imperador (IV) na luta política pelo poder no mundo material, e se pergunta quem é “que opõe os mundos ao Mundo, e os seres entre si”. |
|
| Para Ouspensky, o Diabo “completa o triângulo |
|
|
| cujos outros dois lados são a morte e o tempo”, no sentido da formalidade do ilusório. |
|
| Ele dá origem ao terceiro e último setenário do Tarô, plano do mundo físico ou do corpo perecível do homem. Do ponto de vista da finitude temporal, não é menos importante do que o Prestidigitador para o reino do espírito, ou o triunfal protagonista de O Carro (VII) para a análise psicológica. |
|
| "Na medida em que sempre houve áreas sombrias e ainda desconhecidas para o conhecimento e que presumivelmente, os enigmas subsistirão sempre – diz Jaime Rest no seu artigoSatanás, Suas Obras e Sua Pompa —, o demoníaco foi e continuará sendo uma constante de nossa realidade, já que esta experiência parece nutrir-se primariamente de algo que se desdobra além do domínio humano, e cuja índole tremenda e estremecedora suscita em nós este abalo íntimo que os teólogos denominam temor numinoso”. |
|
| O estudo dessa figura pode incluir as metamorfoses sofridas pelo Diabo (incluindo a variabilidade do aspecto: da beleza resplandecente com que Milton e William Blake o imaginaram até o horror da sua corte nas telas de Goya) para retornar ao memorável ponto de partida de onde se concebe sem dificuldades a permanência do demonismo: Satã como “um desafio da ordem que os homens atribuíram a Deus”. |
| |
|
|
|
|
|
|
| Baphomet |
|
| Gravura de Eliphas Levi (1810-1875) |
| |
| A figura do Tentador, por outro lado, é inseparável das legiões que o servem (ou seja, da idéia do Inferno), e o Tarô repete esta associação ao representá-lo junto com o casal acorrentado – seres que podem ser tanto seus prisioneiros como seus colaboradores. A repetição do esquema dantesco é atribuída por Carrouges à paralisia imaginativa dos séculos posteriores em relação ao tema; daí a fixação e o empobrecimento do ciclo mítico na literatura européia. |
|
| Esta visão demonológica contemporânea, que faz do Diabo uma metáfora conflitante da dignidade humana, não é menos importante que a tradicional. Impõe-se, ao menos, como mais uma referência para a análise atualizada do Tarô. |
|
| Os comentários reunidos até aqui, porém, estão longe de esgotar as indicações para o estudo deste personagem tão ambíguo. |
|
| Vale a pena conhecer as reflexões de G. O. Mebes, em Os Arcanos Maiores do Tarô, sobre o papel de Baphomet, enquanto representação "da bipolaridade do turbilhão astral", passagem inevitável no processo evolutivo. |
|
|
|
|
| O Livro de Jó e o curioso papel de Satanás |
|
| Nos estudos do arcano 15 costumo colocar um contraponto às abordagens usuais dessa figura ambígua. Gosto de lembrar a passagem inicial do Livro de Jó (Jó 1, 6-12): |
|
| Um dia, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor. Entre eles, também Satanás. O Senhor disse, então, a este: “De onde vens?” – “Acabo de dar umas voltas pela terra”, respondeu ele. O Senhor disse-lhe: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, teme a Deus e afasta-se do mal.” Satanás respondeu ao Senhor: “É sem motivo, que Jó teme a Deus? Não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste as obras de suas mãos, e seus bens cresceram na terra. Estende, porém, um pouco a tua mão e toca em todos os seus bens, para ver se não te lançará maldições na cara!” Então o Senhor disse a Satanás: “Pois bem, tudo o que ele possui está a teu dispor. Contra ele mesmo, porém, não estendas a mão”. E Satanás saiu da presença do Senhor. |
|
| Fica explícito que Satanás dialoga com o Senhor e é autorizado a realizar as provas. Jó sofre toda sorte de revezes que se estendem mesmo depois de o diabo se convencer das virtudes desse santo homem. Mas, no final de tudo, o Senhor restituiu em dobro a Jó tudo que lhe fora tirado: "Jó viveu ainda cento e quarenta e quatro anos e viu seus filhos e os filhos de seus filhos até a quarta geração. E morreu velho e cumulado de dias." |
| |
|
|
|
| Jó e o Diabo |
|
| Xilogravura de autor desconhecido |
|
|
|
| Costumo recorrer ao bom humor para traduzir um certo papel do personagem do arcano 15: ele é o inspetor de qualidade autorizado por Deus para colocar os homens à prova. E esse mesmo papel se repete quando Cristo se prepara para sua missão final nesta terra: o diabo vem testar o próprio filho de Deus oferecendo tentações de poderes. Sem maiores problemas o Cristo passa pelas provas e o diabo sai de cena. |
|
| Essa conotação de "inspetor de qualidade" pode nos ajudar, entre outros atributos, a refletir sobre estratégias de ação, quando o arcano 15 sai numa tiragem para indicar o conselho para o consulente enfrentar algum desafio ou para corrigir uma situação difícil. |
|
Pensar simbólicamente exige muito mais do que classificar sumariamente as cartas como "boas" ou "ruins". Esse alô vale também para buscamos compreensão mais ampla da carta 13. A Morte e da 16. A Torre.
| XVI. A Torre ou Casa de Deus |
|
| O Arcano da Libertação e da Construção |
|
|
Compilação de Constantino K. Riemma
| |
|
|
|
|
|
|
| Tarô de Marselha |
|
| www.krishadar.com |
| |
| O céu está coberto de esferas coloridas; dois homens caem de uma torre fulminada por um raio. A torre – localizada num terreno montanhoso, do qual brotam seis plantas verdes – tem três janelas azuis; a maior delas parece estar num andar mais alto que as outras. Não aparece a porta de entrada, na edição Grimaud. |
|
| Um raio com várias cores, linhas exuberantes, decapita o edifício, que é arrematado por quatro ameias. Sobre o fundo incolor do céu podemos contar 4 esferas na parte superior, 14 esferas à esquerda, 19 esferas à direita. |
|
| Um dos homens está caindo na frente da torre; do outro, mais atrás, vê-se apenas a parte superior do corpo, à direita da gravura. Os dois estão de perfil. No Tarô clássico, não aparecem tijolos ou pedras caindo sobre os homens, de modo a colocar suas vidas aparentemente em risco. |
|
| As pequenas manchas que se observam no chão, na frente da torre, não têm uma definição clara: podem ser pedras, líquido, pegadas. |
|
| Significados simbólicos |
|
| Rompimento das formas aprisionadoras, liberação para um novo início. Desafios dos momentos de transição. |
|
|
Destruição da rigidez. Abertura. Conhecimento. Desmoronamento e queda. |
|
| Interpretações usuais na cartomancia |
|
| Alterações, subversões, mudanças, debilidades. Libertação da alma aprisionada; quebras. |
Conhecimento súbito. Parto, crise saudável. Modificação traumática, separação repentina. Perdas, insegurança. Desconfiança em si mesmo, inquietação provocada por negócios arriscados. Benefício recebido devido aos erros de outras pessoas. Austeridade, uma tendência à timidez. Temperamento piedoso, religiosidade prática que não deprecia o material. |
|
| Mental: Indica o perigo que pode haver em perseverar em certa direção, em manter uma idéia fixa. Advertência para evitar tropeços e total aniquilamento dos planos em andamento. |
|
| Emocional: Domínio sobre os seres, mas sem caridade nem amor, já que se exerce com despotismo. Tarde ou cedo, sofrerá uma rejeição afetiva. |
|
| Físico: Projeto brutalmente abortado. Sinal ou anúncio não levados em conta; deve precaver-se nas atividades e negócios. |
|
A chama que decapita a torre pode ser interpretada, no entanto, como uma liberação. Do ponto de vista da saúde: não passar os limites das forças vitais, já que uma enfermidade espreita. Se há alguma enfermidade, indica o restabelecimento após um período penoso. |
| |
|
|
|
| Sentido negativo: Grande cataclismo, confusão completa. Enfermidade. Falta castigada, catástrofe produzida por imprudência. Maternidade clandestina. Escândalo, hipocrisia desmascarada. Excesso, abuso. Presunção, orgulho. Empreendimentos utópicos. |
|
| História e iconografia |
|
| A imagem de um homem que se precipita no vazio, do alto de uma torre, é uma das alegorias mais remotas que se conhece para representar o orgulho. Custa pouco intuir que esta metáfora – e a aniquilação celeste que a acompanha – tem filiação direta ao destino da torre de Babel. |
|
|
|
|
| Baixo relevo do século 13 |
|
Catedral de Notre Dame de Amiens França |
| |
| Alguns estudiosos pensam que a sua inclusão no Tarô pode ser devida a uma impressionante corroboração histórica: o processo contra os templários e a sua queda vertiginosa, contemporânea dos imagiers que compuseram o Tarô. |
|
| Mais ambígua parece ser a chuva de esferas multicolores, cuja leitura não admite outra interpretação que a da influência do “alto” (com variações, esta chuva se repete nas cartas XVIII e XIX, arcanos de evidente simbolismo sideral). |
|
| Em uma miniatura pertencente a um manuscrito da Bíblia Pauperum (1350 a 1370), vê-se que o fogo do altar é aceso por meio de uma chuva semelhante à destes três arcanos. “Celita flamma venit / Et plebis pectora lenit” ("Vem a chama celeste / E aplaca o peito do povo"), é o que diz a legenda, clara paráfrase do milagre concedido a Elias diante da multidão cética (I Reis 18, 38-39). |
|
|
|
| Além do nome com que figura aqui, o Arcano XVI é também conhecido como A Torre ferida pelo raio, e pelo enigmático La Maison-Dieu, que aparece no Tarô de Carlos VI, na versão de Marselha, e que Oswald Wirth aproveita no seu desenho atualizado. |
|
| O próprio Wirth, porém, não dá uma explicação satisfatória para este último nome, limitando-se a corroborar o evidente simbolismo arquitetônico da figura, que se refere ao homem por sua verticalidade; à casa e às obras que ele constrói sobre a Terra – de onde se poderia deduzir também uma parábola sutil sobre o orgulho, pelo despropósito da tentativa de imitar o Grande Arquiteto. |
|
| Em certas versões do Tarô, parcialmente conservadas, o Arcano XVI apresenta um diabo que bate um tambor. Mas sua figura é secundária porque em primeiro plano aparece a goela de um monstro, entre cujos dentes se debate um ser humano. |
|
| Isso parece indicar que o fundo simbólico desse arcano, vale dizer, as analogias que se pode estabelecer na série torre-casa-goela-vagina-gruta-caverna primordial são muito anteriores à sua representação no jogo de cartas. |
| |
|
|
|
| Podemos constatar que este é o primeiro edifício que figura no Tarô e, de longe, o mais destacado. Neste sentido é preciso agregar à série analógica proposta as seguintes indicações: toda torre é emblemática do simbolismo ascensional e na Idade Média representou freqüentemente a escala intermediária entre a Terra e o Céu. Por seu aspecto murado, cuidadosamente defendido, também estabelece analogias com avirgindade. |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário