Tarot - Arcanos Maiores II

(Continuação da parte um)

XVII. A Estrela
O Arcano da Esperança, do Crescimento e da Mãe do futuro
Compilação de 
Constantino K. Riemma
A Estrela no Tarot de Marseille-Kris Hadar
Uma mulher com um joelho apoiado no chão tem uma jarra em cada mão; derrama conteúdo de uma delas numa superfície de água (rio ou lago) e, da outra, na terra. No céu há oito estrelas.
A mulher é jovem e está completamente nua; seus cabelos caem livremente sobre as suas costas e ombros. O joelho que está apoiado no chão é o esquerdo; a ponta do pé direito está em contato com a água. Representada ligeiramente de três quartos, seu olhar parece ignorar o trabalho que realiza. Do chão brotam uma planta com três folhas e, um pouco mais atrás, dois arbustos diferentes se destacam contra um céu incolor; sobre o da esquerda um pássaro negro de asas abertas parece estar pousado ou a ponto de levantar vôo.
No céu podem ser vistas duas estrelas de sete pontas e cinco estrelas de oito pontas. Estão dispostas simetricamente em volta de uma estrela muito maior, que tem dezesseis pontas, oito amarelas e oito vermelhas.
<-- A Estrela no Tarô de Marselha restaurado por Kris Hadar
Significados simbólicos
Esperança, confiança. Idealismo. Imortalidade. Plenitude. Beleza. Natureza.
O céu da alma. Influência moral da idéia sobre as formas.
Interpretações usuais na cartomancia
Pureza, entrega às influências naturais, sadias. Confiança no destino. Plenitude e sensibilidade poética, intuição. Bondade, espírito compassivo. Energia, convalescença.
Mental : Alguém traz uma força para ser utilizada, mas não diretamente. É a inspiração do que deve ser feito.
Emocional : Uma corrente de equilíbrio e de esplendor.
Físico : A satisfação, o amor humano em toda a sua beleza; o destino dos sentimentos que animam o ser. Realização das coisas através da ordem e da harmonia.
Em questões referentes à arte, esta carta fala do dom de encantamento, ou seja, o resplendor que atrai o próximo.
Sentido negativo : Harmonia desviada do seu destino; harmonia física pouco duradoura.
Falta de vergonha, despudor, leviandade. Falta de espontaneidade. Coações, moléstias. Natureza artificial e anti-higiênica.
Tendência para a evasão e para o romantismo exagerado. Temperamento inapto para a vida prática. Estreiteza de visão, doenças.
A Estrela no Tarô de Bartolomeo Colleoni, Milano 1460-1470 -->
Ilustração in Andrea Vitali
www.www.letarot.it
Le Stelle - A Estrela - no Taroccho Colleoni
História e iconografia
O número de estrelas representadas neste arcano varia, segundo o modelo do Tarô, de seis a oito. Astronomicamente, parece referir à constelação das Plêiades (uma estrela grande, rodeada de sete menores) ou ao setenário sideral com o Sol no centro.
A Constelação de Aquário
Representação de Aquário
Ganimedes, o mais belo mortal, levado
por Zeus ao Olimpo, para ser escanção
(= servidor de vinho) dos deuses.
“Fala-se de sete Plêiades – disse o sutil Ovídio – mas na verdade não vemos mais que seis."
Devido à reprodução quase textual da alegoria do signo de Aquário , muitos vêem no Arcano XVII uma herança zodiacal. Mas van Rijneberk nota, com razão, que tanto este signo bem como suas alegorias das correntes de água, foram tradicionalmente representados com figuras masculinas.
Outra diferença entre a carta e seu pretendido modelo é o número de ânforas: tanto Aquário quanto os seus similares alegóricos (que incluem representações do Dilúvio) transportam um só recipiente.
É possível, desse modo, atribuir à Estrela uma relativa originalidade, o que permite supor que a freqüente mudança de sexo de Aquário, em imagens posteriores ao século XVI, teria se inspirado no Tarô.
No verbete dedicado a este signo zodiacal no seuDicionário de Símbolos, Juan-Eduardo Cirlot passa uma informação que vale a pena citar:  “No zodíaco  egípcio
de Denderáh o homem de Aquário dispõe de duas ânforas, troca que explica melhor a transmissão dupla das forças, em seus aspectos ativo e passivo, evolutivo e involutivo, duplicidade que aparece substantiva no grande símbolo de Gêmeos”.
Uma fonte menos provável, mas não impossível, da iconografia desta estampa pode ser encontrada noApocalipse (XVI, 3, 12): ali é dito que os sete anjos derramarão suas taças sobre o solo e o ar, mas sobretudo sobre os cursos d'água.
A estrela – individual e guia ; sinal da divindade sobre o céu do herói – é um emblema comum a diversas mitologias. Delas passa para a tradição e a arte cristãs, e na atualidade pode ser encontrada em numerosas manifestações folclóricas no seu sentido alegórico mais transparente: a pureza , o destino prometido , a elevação.
São João Crisóstomo (Patrística grega, tomo LVI) parece ter recolhido a seguinte lenda: um povo oriental, do qual só sabemos que vivia perto do oceano e que tinha entre as suas tradições um livro atribuído a Set, escolheu em época remota doze homens dentre os mais sábios, cuja missão era única e surpreendente: vigiar o nascimento de uma estrela que o livro previa; se algum deles morria, seu filho ou parente mais próximo era eleito para substituí-lo. Mantiveram este rito durante gerações, até que a estrela da sorte apareceu no horizonte: três deles foram então encarregados de segui-la, o que fizeram por dois anos, durante os quais nunca lhes faltou bebida nem comida.
“O que fizeram depois – conclui o curioso pergaminho – é explicado de forma resumida nos Evangelhos."
A Estrela no Tarot de Visconti-Sforza
A Estrela
Tarô Visconti Sforza(1450)
A Estrela no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
Quanto à parte inferior do Arcano XVII, Wirth acredita que o arbusto ali representado seja uma acácia“mimosa do deserto, cujo verdor persistente simboliza uma vida que se recusa a extinguir-se”. O prestígio mítico da acácia é tão vasto quanto intrincado, pois além de ser a planta emblemática da esperança na imortalidade, foi também protagonista de histórias notáveis: entre suas raízes teria sido enterrado Hirã, detentor da tradição perdida, depois de ser assassinado; da sua madeira teria sido construída a cruz de Jesus Cristo.
Deve-se acrescentar que a jovem da figura lembra o princípio feminino de certos ritos primordiais, “a mãe sempre jovem, a consoladora, a clemente, a natureza amável e bela, a terna amante dos homens”. É sob este aspecto que os oráculos tendem a relacioná-la à juventude e ao bom humor, ao sonho e às suas revelações, e à realidade da poesia.
Fulcanelli acrescenta ainda o duplo sentido simbólico da estrela, como  concepção e nascimento,  e faz uma bela descrição de um vitral de sacristia de Saint-Jean de Rouen: ali estão representados Benito e
Felicitas, pais de São Romão; os esposos estão deitados na cama totalmente nus; sobre o ventre da mulher, que acaba talvez de conceber o santo, pode-se ver uma estrela.

XVIII. A Lua
O Arcano da inteligência instintiva, dos ciclos vitais
Compilação de
Constantino K. Riemma
A Lua no Tarot de Marselha-Camoin
Tarô de Marselha
www.camoin.com
A Lua parece atrair (ao contrário do Sol) dezenove manchas de cor, em forma de lágrimas. Essa direção das gotas variam com as diferentes desenhos, mesmo entre as versões clássicas.
Embaixo da Lua há dois cães e, mais atrás, duas torres. Alguns autores reconhecem um dos animais como cão e, o outro, como lobo.
Em primeiro plano, um lagostim (a maioria das descrições fala em “caranguejo”) encontra-se num tanque que, com suas bordas retas, parece construído; os dois cães têm a língua para fora, dando a entender que querem lamber as gotas. Do chão brotam várias plantas (ou apenas três, em algumas versões).
As duas torres parecem delimitar e proteger o espaço no qual se encontram os animais e o tanque.
A Lua está ao mesmo tempo cheia e crescente; dentro desta última figuração vê-se o perfil humano; os raios são de dois tamanhos. As dezenove lágrimas estão dispostas em forma de colar, numa fileira dupla e com a ponta para baixo.
Significados simbólicos
A inteligência instintiva, os ciclos vitais.
Os elementos da natureza, o mundo visível, a luz refletida, as formas materiais, o simbolismo.
Imaginação. Reflexão e reflexos. Aparências. Ilusões.
O momento de reavaliar a direção, de buscar inspiração no retorno à fonte.
Interpretações usuais na cartomancia
O mundo sensível, instintivo, vital. Experimentação, trabalho, penosa conquista da verdade. Instrução pela dor; trabalho cansativo, mas necessário.
Vidência passiva, receptividade, sensibilidade, lucidez.
Navegação, mudança. Inconstância, insegurança, medo.
Irracionalidade, fantasias, penumbra.
Mental: Em caso de negociações: mentira; em caso de trabalho pessoal: erro. Olhar superficial em todos os níveis.
Emocional: Sentimentos conturbados ou em desordem, passionais, aparentemente sem saída. Ciúmes. Hipocondria. Idéias quiméricas.
Físico: Obscurecimento. Agitação.
Escândalo, difamação, denúncia, segredo que fica público.
Se a pergunta se refere à saúde, pode significar desordens no sistema nervoso, o que pode tornar recomendával uma mudança de ambiente, para buscar lugares secos e com calor.
Sentido negativo: O instinto – causa de miragens – acentua seus efeitos pela situação ascendente do pântano. Estado de consciência confuso que permanece latente e sem se manifestar. Erros dos sentidos, falsas suposições. Embustes, enganos, decepção, desilusão.
Teorias equivocadas, falso saber, vidência histérica. Ameaça, chantagem.
Viagem inoportuna, caprichos. Caráter perturbado, neurótico.
A Lua no Tarot de Marselha-Kris Hadar
Tarô de Marselha
www.krishadar.com
História e iconografia
A Lua no Tarot Gringonneus
Tarot "Gringonneur"
Em vários desenhos do Tarô anteriores ao de Marselha – como é o caso do denominado Gringonneur, de aproximadamente 1455 – o arcano XVIII representa dois astrólogos, elaborando cálculos sob uma lua minguante. Os diversos elementos do baralho de Marselha – os cães, o caranguejo, o tanque, as torres – não aparecem neles. A própria Lua só é apresentada num plano, ao contrário do desenho concêntrico (perfil humano, crescente, disco), tal como aparece no Tarô de Marselha.
Já nos desenhos mais conhecidos, as duas torres podem ser consideradas como pórticos monumentais, que defendem ou protegem o espaço interno, no qual se encontram os animais.
É imporante lembrar que a Lua (Diana-Hécate, na mitologia grega) é ao mesmo tempo Janua Coeli e Janua Inferni: a porta do Céu e a porta do Inferno, o que as coloca em estreita relação com os dois cães (ou lobos) a uivar. Constituem indicadores da idéia dedualidade, bipolaridade.
Já Athanasius Kircher (1601-1680) localizava Anúbis e Hermanúbis (divindades curiosamente representadas com cabeça de chacal)  ante
as duas portas do Céu: Anúbis no solstício de inverno, frente à porta da ascensão, indicada pelo signo de Capricórnio no hemisfério norte; Hermanúbis no solstício de verão, frente à porta da descida, ou do homem, indicada pelo signo de Câncer.
Clemente de Alexandria, por outro lado, descreveu as procissões egípcias, que incluíam o passeio dos dois cães-deuses“segundo eles, guardiães das portas no Sol, no norte e no sul”, o que poderia ter relação com os solstícios do inverno e da primavera.
Embora não haja exemplos de zoolatria entre os gregos, é verdade que consagraram diversos animais para a companhia dos deuses. No caso de Artemisa – afirma Plutarco, em Isis e Osíris – seu cortejo era formado por dois cães; é significativo lembrar que a caçadora celeste era, para seu povo, uma divindade lunar.
Quanto ao caranguejo, sua relação com a Lua é antiga e constante, aparecendo em ritos e lendas protagonizadas pelo astro noturno em numerosas culturas. Isto pode ser atribuído à marcha retroativa do animal, comparada ao movimento da Lua pela observação popular.
Do ponto de vista astronômico, o caranguejo se relaciona com o simbolismo geral da carta e das torres em particular: Cânceré, como se sabe, signo do Trópico e, ainda, do solstício de verão, no hemisfério norte.
Hermanubis
Hermanubis
As manchas de cor em forma de lágrimas que chovem da Lua (ou se dirigem para ela) estão desenhadas com a ponta para baixo; no arcano seguinte (O Sol) aparecem com a ponta para cima.
A Lua no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
Ouspensky viu nas imagens do Arcano XVIII uma alegoria daviagem heróica, um resumo claro do simbolismo relacionado ao trânsito e a passagem: o tanque de água (matéria primordial), o caranguejo que emerge (devorador do transitório, como o escaravelho entre os egípcios), os cães que interceptam a passagem (guardiães, qualificadores da aptidão do viajante para enfrentar o mistério), as torres no horizonte (cheias de ciladas e também de portas – meta, fronteira).
Cirlot imagina que os cães impedem a passagem da Lua para o domínio do logos (conhecimento solar) e comenta a descrição deWirth sobre o que não se vê na gravura: “Atrás dessas torres há uma estepe e atrás um bosque (a floresta das lendas e contos folclóricos), cheio de fantasmas. Depois há uma montanha e um precipício que termina num curso de água purificadora. Essa rota parece corresponder à descrita pelos xamãs em suas viagens extáticas."
O que se mostra evidente é que o Arcano XVIII está mais relacionado que qualquer outro com o plano iniciático da via úmida (lunar).  É por essa razão que Oswald Wirth relaciona a Lua à
intuição e ao imaginativo, ainda que entre suas interpretações mais recorrentes em relação à Lua figure a sensualidade.
A aproximação do Arcano XVIII com o vasto simbolismo lunar seria interminável, desde a sua relação com o ciclo fisiológico feminino até o panteão das divindades noturnas, passando por suas implicações cósmicas, mágicas e astrológicas.
Parece mais prudente considerar que a Lua não se refere a tudo que nomeia, mas sim à situação específica que compõe com os outros elementos da carta. É bom cuidar para não limitar este arcano ao repertório específico da Astrologia.

XVIIII ou XIX. O Sol
O Arcano da Intuição
Compilação de 
Constantino K. Riemma
O Sol no Tarot de Marseille-Kris Hadar
Tarô de Marselha/Kris Hadar
Dois meninos estão de pé diante de um muro, sob um sol que tem rosto humano, e do qual chovem treze lágrimas de cores.
Os dois meninos vestem apenas uma tanga ou calção (azuis, na ed. Grimaud). O menino da direita parece apoiar uma mão, que não se vê, na nuca do seu camarada, estendendo o braço esquerdo um pouco para trás. O outro tem a sua mão esquerda na altura do plexo solar de seu companheiro, e o braço direito numa posição mais ou menos paralela.
No chão, duas pedras, similares às que aparecem na carta XVI - A Torre. O muro que está por detrás dos meninos é amarelo, com a borda superior vermelha.
Do disco solar, humanizado pelo desenho de um rosto visto de frente, surgem 75 raios; 16 têm forma triangular – a metade com as bordas retas e a outra metade com as bordas onduladas — e os 59 restantes são simples raios negros. Treze gotas, ou lágrimas, ocupam o espaço entre o Sol e os meninos.
Significados simbólicos
- Vitalidade, alegria. Ressurreição diária ao final da noite.
- Intuição, clareza. O princípio celeste. Luz. Razão.
- Concórdia. Influência solar.
Interpretações usuais na cartomancia
Discernimento límpido, clareza de juízo e de expressão. Talento literário ou artístico. Paz, harmonia, bom acordo. Felicidade conjugal. Fraternidade, inteligência e bons sentimentos. Reputação, glória, celebridade. Alegria, sucesso, vitalidade, força, vivacidade. Compreensão, calor, amor, crescimento.
Mental: propósitos elevados. Sabedoria nos escritos, difusão popular harmoniosa; pensamento que alcança grande altura.
Emocional: Afeto cavalheiresco, desvelo, altruísmo. Os grandes sentimentos.
Físico: A saúde, a beleza física. Elemento de triunfo, saída para qualquer situação adversa que se esteja atravessando.
Sentido negativo: Grande adversidade, sorte contrária, tentativas na escuridão.
Deslumbramento. Vaidade, pose, fanfarrice. Susceptibilidade, amor-próprio.
Miséria dissimulada sob uma fachada exuberante. Aparência simuladora, decoração. Artista fracassado, incompreendido.
O Sol no Tarot de Marseille-Camoin
Marselha restaurado
por Camoin-Jodorowsky
História e iconografia
O Sol no Tarot de Oswald Wirth
Para van Rijneberk, o arcano XVIIII não tem originalidade iconográfica, já que a sua figura central – o Sol – é a mesma que pode ser encontrada em qualquer figuração do astro, e que os elementos restantes são também especialmente pobres.
Talvez os dois meninos façam uma alusão astrológica ao signo deGêmeos, período do ano que, no hemisfério norte, corresponde ao soltício de verão.
No desenho ao lado, que Oswald Wirth concebeu para este arcano, os integrantes do par de protagonistas são de sexo diferente e, embora pareçam adolescentes, já não são crianças. O autor atribui a eles a condição de filhos da luz, e também a de uma alegoria das bodas entre o sentimento e a razão.
Na escala individual, simbolizam a tarefa de regeneração que o universo começou a realizar a partir da queda. É por isso que Wirth os considera como “aqueles que reconquistarão o Paraíso”.
No Tarô de Carlos VI, no lugar do par aparece uma fiandeira com o fuso entre as mãos; provavelmente trata-se de uma referência a Penélope e ao ardil com o qual conseguiu preservar-se até a volta do herói.
Nas variantes contemporâneas ao "Tarot Gringonneur", por volta da metade do século XV, pode-se ver também a reprodução dos quatro cavaleiros do Apocalipse.
Não é impossível que, como sugere van Rijneberk, o par de crinças, que aparece no tarô clássico, represente o rico e complexo simbolismo do signo de Gêmeos. É importante lembrar que a passagem do Sol pelo signo de Gêmeos indica, no hemisfério norte, o ponto de nascimento do verão, estação associada ao reino solar e luminoso.
alternância de raios retos e ondulados da efígie solar do Tarô de Marselha, seria uma alusão ao duplo efeito das radiações do astro (luz e calor).
No campo divinatório costuma-se opor o Sol à Lua por analogia de contrários: luz quente x luz fria; luz potente x luz fraca; dia xnoite; masculino x feminino...
O Sol no Tarot "Gringonneur"
Tarô Gringonneur ou
Charles IV (1.455)
Castor e Polux os gêmeos da mitologia grega. Imagem obtida em www.artehistoria.com
Castor e Pólux,
os gêmeos mitológicos.
Relacionado ao aspecto Filho das divindades trinitárias, as qualidades do Sol aparecem freqüentemente comoatributos dos heróis, seja porque estes são exaltados à altura do Sol, ou porque o sol se manifesta de maneira excepcional em alguma circunstância de suas vidas. Um exemplo é que o Sol se oculta prodigiosamente como protesto pela morte do eleito, nas lendas de Héracles e Sigfrido.
No Antigo Testamento pode-se rastrear a filiação solar deSansão (Juízes 13.16), desde o seu nome até o lugar em que acontecem suas façanhas (Betsemer, que significa "casa do Sol"), passando pelas relações entre força e cabelo, análogas às peripécias do Sol no seu trânsito pelas estações.
Uma variante deste tema pode ser encontrada no drama do Gólgota, tal como o contam os Evangelhos (Mateus 27, 45; Marcos 15, 33; Lucas, 23, 44-45).
Como no caso do arcano XVIII (A Lua), no entanto, é necessário prevenir contra uma excessiva ênfase no simbolismo solar do arcano XVIIII, o que lhe daria uma importância desmedida no conjunto das vinte e duas cartas.

XX. O Julgamento
O Arcano da Ressurreição
Compilação de 
Constantino K. Riemma
O Julgamento no Tarot de Marseille-Camoin
O Julgamento
Tarô de Marselha-Camoin
Na parte superior da carta, rodeado de nuvens, um anjo toca uma trombeta. Na parte inferior, três personagens nus – um dos quais, o do centro, está de costas – parecem estar em atitude de oração. Uma terra árida se estende por trás deles.
O personagem que está de costas emerge de uma espécie de sarcófago; seus cabelos são azuis e tem uma tonsura. Dos seus lados, visíveis somente até a cintura e representados de três quartos, os dois personagens restantes – uma mulher à esquerda e um homem com barba, à direita – parecem olhar para a figura do centro. Têm as mãos juntas, como numa prece.
Sobre um céu incolor, o anjo está rodeado de um circulo de nuvens azuis, das quais saem vinte raios: dez são amarelos; os outros dez, vermelhos. De suas vestes vê-se apenas um corpete branco e umas mangas azuis (ou vermelhas, em algunas versões). Segura a trombeta com a mão direita, que está próxima da boca; a esquerda apenas a toca, segurando um retângulo com uma cruz.
Significados simbólicos
Os julgamentos essenciais, a avaliação dos rumos da existência.
O despertar. Exame de consciência. Sopro redentor.
Renovação. A promessa da vida eterna.
Interpretações usuais na cartomancia
Entusiasmo, exaltação emocional, intensidade dos sentimentos, espiritualidade. Capacidades ocultas, dom de adivinhação.
Atos prodigiosos, medicina milagrosa. Santidade, doação.
Renovação, nascimento, retorno de assuntos do passado ou sua atualização. Recados, propaganda, proselitismo, apostolado.
Estar sujeito à avaliação de outros, ser julgado por suas ações.
Mental: O homem convocado a um estado superior; tendências e desejos de elevação.
Emocional: Devoção, exame de consciência.
Físico: Estabilidade nos assuntos que estão encaminhados. Saúde e equilíbrio.
Sentido negativo: Erro em relação a si mesmo e a todas as coisas; provas e trabalhos que resultarão de um juízo falso.
Vacilação espiritual, ofuscamento da inteligência. Bobo evocador de fantasmas.
Ruído, alvoroço, agitação inútil.
O Julgamento no Tarot de Marseille-Kris Hadar
Tarô Marselha-Kris Hadar
História e iconografia do Juizo Final
Afresco sobre a Ressurreição dos mortos
As gravuras cristãs, em geral, mostram duas diferentes idéias de ressurreição. A primeira, dos Evangelhos, refere-se aos fenômenos no momento da morte de Jesus:
“Abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram, e, saindo dos sepulcros depois daressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mateus, 28, 52-53).
Um exemplo desta versão pode ser visto numa miniatura do século XII. “A terra recebeu ordem de devolver os seus mortos”, diz a legenda que a acompanha. A ilustração, ao lado, oferece idéia similar.
A segunda, mais amplamente difundida, é a do Juízo Final. Sobre ela escreveram Mateus (25, 31-46) e, com maior detalhe, João (Apocalipse, 20, 12).
Os artistas que se inspiraram nesta última versão se viram obrigados a selecionar, cada um à sua maneira, dentre a profusão de símbolos e alegorias verbais evocados por João para narrar esta cena.
← Juízo Final na igreja Notre-Dame des Fontaines (França)
As primeiras representações do Juízo Final remontam ao ano mil, aproximadamente, mas alcançaram a perfeição nos séculos XII e XIII, nas catedrais. Conhece-se apenas um exemplo anterior a estas datas: trata-se de um baixo-relevo em marfim (Tours, c. 800).
Em todas essas imagens, os mortos surgem inteiramente nus dos seus túmulos, o que seguramente foi tomado de fontes tradicionais (o Livro de Jó; a carta de São Columban a Hunaldus – ano 615; o opúsculo Desprezo do Mundo, de Inocêncio III – cerca de 1200).
Uma tradição popular, surgida nesta mesma época, acredita que os mortos surgiriam de seus túmulos como esqueletos, mas que se revestiriam então da carne e da pele perdidas assim que tomassem contato com a luz.
Vitral na Sainte Chapel
Vitral da St. Chapelle - Paris
O Julgamento no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
A presença dos ressuscitados, bem como o anjo com a trombeta que parece convocá-los, remetem claramente o arcano XX do Tarô a essas imagens do Juízo Final; até a bandeirola da trombeta, que reproduz uma cruz-de-malta, é freqüente nos modelos em que a carta provavelmente se inspirou.
Num sentido geral, o simbolismo do Arcano XX refere-se à morte da alma, ao esquecimento da sua finalidade transcendente, no qual o homem pode cair: o sarcófago ou túmulo representaria as fraquezas e apetites carnais, e o anjo com a trombeta faz a convocação do espírito: a oportunidade pela qual desperta o anseio latente de ressurreição que se supõe adormecido em todo ser humano.
Para Wirth, o trio de ressuscitados representa a família essencial (Pai-Mãe-Filho) no momento de sua regeneração, e o último dos seus termos (o Filho) representa uma nova metamorfose do protagonista do caminho iniciático.
Quando se admite que o Tarô constitui uma alegoria da Iniciação, é possível reconhecer o Prestidigitador-Enamorado-Carro-Enforcado no homem nu do túmulo, “pronto para receber o Magistério”.


XXI. O Mundo
O Arcano da Alegria e da Celebração da Vida
Compilação de 
Constantino K. Riemma
O Mundo no Tarot de Marseille-Camoin
Tarô de Marselha-Camoin
Dentro de uma grinalda amendoada dança um personagem nu, coberto só parcialmente por um véu que desce do seu ombro esquerdo; na mão do mesmo lado traz uma vareta. Nos cantos da carta, quatro figuras evocam a representação simbólica tradicional dos evangelistas: anjo, águia, leão e touro (embora este último pareça mais um cavalo).
A grinalda está formada de folhas simples e oblongas (no Tarô de Marselha da editora Grimaud, as folhas do terço superior são amarelas, as do meio vermelhas e as da parte inferior azuis); está amarrada, em cima e embaixo, por laços vermelhos em forma de xis.
Dentro do espaço ovulado que a grinalda limita – com o pé direito pousado sobre um suporte vermelho (ou amarelo) e a perna esquerda dobrada por trás do joelho direito – está o personagem que parece dançar. Sua cara poderia ser masculina, mas tem seios de mulher; o véu curto que o cobre tapa justamente o seu sexo. Em uma mão leva a vara, na outra um objeto indeterminado.
No ângulo superior direito da carta há uma águia, a cabeça aureolada por um círculo vermelho, olhando para a esquerda; no ângulo oposto, um anjo olha para baixo.
Nos ângulos inferiores se vê, à direita, um leão amarelo com auréola rosada, representado de frente; à esquerda, uma espécie de cavalo, o único dos quatro sem auréola. Este último animal, que é visto de três quartos, olha para a frente e para a esquerda. Tanto o leão como o cavalo parecem dotados de asas de composição semelhante às folhas da grinalda.
Significados simbólicos
Finalização, realização. Recompensa. Apoteose.
Encontrar o próprio lugar no mundo. Centralizar-se.
Alegria de viver. O sensível, a carne, a vida transitória. O equilíbrio inspirado.
Interpretações usuais na cartomancia
Sorte grande, êxito completo. Coroamento da obra, finalização de um processo. Força decisiva. Circunstâncias muito favoráveis, meio propício. Integridade absoluta. Contemplação envolvida. Êxtase. Alegria, reconhecimento, riqueza.
Representa o elemento feminino. É uma carta de caráter muito individual.
Mental: Grande poder da mente. Tendência para a perfeição. Magistério mental e psíquico.
Emocional: Significa elevação do espírito, sentimentos amorosos no sentido altruísta, sem egoísmo nem sensualidade. Amor à humanidade, tarefas sociais a cumprir. Sentimentos guiados pelo desejo de aperfeiçoar tudo que se faz. Para os artistas: inspiração abundante.
Físico: Experiência rica. Atividades sólidas e brilhantes. Êxito em níveis não transcendentes (mundanos, transitórios). Boa saúde.
Sentido negativo: Fracasso. Processo que afeta os sentimentos. Sacrifício por amor. Obstáculo formidável.
Ambiente hostil, todos estão contra. Disposições mundanas. Dispersão, distração. Incapacidade para se concentrar. Grande revés da sorte, ruína. Desconsideração social.
O Mundo no Tarot de Marseille-Kris Hadar
Tarô de Marselha
[www.krishadar.com]
História e iconografia
São Jerônimo, no século IV, parece ter sido o primeiro a associar os quatro evangelistas aos animais da visão de Ezequiel. Mil anos depois é freqüente encontrá-los em relevos e mosaicos, e aparecem com grande freqüência nas miniaturas dos manuscritos posteriores a esta data. 
Em outras tradições são equivalentes a diversas alegorias derivadas do quaternário, entre as quais sobressai a que representa a rosa-dos-ventos.
Quanto à grinalda, seu processo iconográfico pode ser seguido com clareza. Na arte da Índia – de onde passou às culturas mediterrâneas – numerosas divindades eram tradicionalmente marcadas por essa orla oval, que se refere ao povo do mundo.
Mitra, o Sol radiante, foi representado durante a época helenística como um homem jovem e nu, dentro de uma grinalda na qual figuravam os signos do zodíaco. Num baixo-relevo encontrado em Módena, vê-se Cronos numa composição próxima à do arcano XXI, incluindo ainda as figuras dos cantos.
Este grafismo parece ter dado origem à difundida auréola que, a princípio, era amendoada (mandorla); só bem mais tarde adotou a forma redonda das estampas modernas.
Cristo
Cristo e os Evangelistas - iluminura de 1.220
in www.wikipedia.org
A Virgem de Guadalupe (México) - imagem do século 16.
Nossa Senhora de Guadalupe (México) - séc. 16
in www.wikimedia.org
Tanto nos pórticos das catedrais góticas, quanto nos murais de estilo bizantino das
antigas igrejas e nas iluminuras dos manuscritos religiosos, é a figura do Cristo que ocupa
o centro da mandorla, também denominada "vesica pisces". A mondorla preenchida
por Nossa Senhora, figura feminina, torna-se mais comum após o Renascimento.
Milhares de santos foram figurados na Idade Média dotados de auréola, embora não seja arriscado supor que isto foi uma derivação estética proveniente das mais antigas imagens da Virgem Maria que tinham este atributo.
Van Rijneberk assegura que por trás do simbolismo de sacralização (auréola = aura de santidade) pode-se ler o significado que a associa à virgindade, já que desde tempo remoto esta era representada pela amêndoa, cujo fruto acreditava-se havia nascido por geração espontânea.
Van Rijneberk acrescenta que, neste caso, a figura vertical e a forma oval que a circunda “parecem representar, de maneira mais ou menos velada, uma vagina simbólica”. Sob este aspecto, o arcano XXI representaria o amor. Neste caso, cabe estabelecer uma analogia entre a protagonista de O Mundo e o "Nascimento de Afrodite", divindade com a qual tem numerosos pontos em comum.
Se as séries do Tarô e os seus sistemas de relações se organizam, como se viu, pela dupla variável de ternários e de setenários, é evidente a importância do simbolismo de O Mundo (21 = 7 ternários = 3 setenários = 7 x 3 = 3 x 7).
É a partir desse significado numerológico que muitos definem o principal sentido do arcano O Mundo como sendo “a totalidade ou o conjunto do manifestado”, o que é referendado pela alegoria quaternária, ordem sempre associada aos modelos de organização.
Neste sentido, o arcano XXI seria também o Destino Maior (que universaliza o tema do Destino Menor ou cotidiano, representada pelo arcano X, a Roda da Fortuna), o rigoroso mecanismo que rege a pontualidade da rotação da Terra, das estações, das crescentes e minguantes, do dia e da noite.
O Mundo no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
Ouspensky entende que esta carta apresenta o resumo do cotidiano – que se oferece continuamente aos sentidos sem ser inteligível na sua totalidade, mas apenas fragmentariamente, já que “tudo o que se vê, as coisas os fenômenos, não são senão hieróglifos de idéias superiores”.

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